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quarta-feira, 10 de março de 2021

 

 

PALAVRAS NA FESTA COMEMORATIVA DO 38º ANIVERSÁRIO DO 25 DE ABRIL EM TORONTO

 

Em 2012 estive presente, em representação da A25A, nas comemorações do 25 de Abril em Toronto, a convite da Associação Cultural 25 de Abril, Núcleo Salgueiro Maia. É costume os seus dirigentes convidarem um representante da A25A todos os anos, mas nesse ano quiseram também homenagear Aristides de Sousa Mendes, pelo que viajámos, eu e a Marília, acompanhados pelo seu neto Francisco e sua esposa. Foi para nós uma dupla satisfação juntarmos os responsáveis da Associação de Toronto e os familiares do corajoso cônsul de Portugal em Bordéus.

Na festa das comemorações dirigi aos cerca de 200 presentes uma singelas palavras, que aqui reproduzo.

  

Membros dos corpos sociais da AC25A de Toronto, núcleo Salgueiro Maia;

Sr. Cônsul de Portugal em Toronto;

Srs. Representantes políticos presentes;

Minhas Senhoras e Meus Senhores;

Amigos;

 

Caros compatriotas! Portugueses do Canadá!

Eu venho agora de Portugal. E estou aqui, junto de vós, a convite da Associação Cultural 25 de Abril de Toronto e em representação da A25A de Lisboa, para comemorar convosco o 38º aniversário do 25 de Abril de 1974.

Como sabem (hoje tudo se sabe em cima da hora), há muita desilusão na nossa sociedade! Muitas pessoas desconsoladas, muita gente sofrendo. Isso é verdade. A situação exige-nos reflexão e empenho.

A minha primeira ideia, como homem do 25 de Abril, é que nenhuma solução para encarar a crise deve mencionar sequer, a natureza do regime democrático em que vivemos. Foi uma conquista árdua, de milhares de portugueses, democratas, presos, deportados, exilados, emigrantes, todos sofreram para que Portugal fosse um país de liberdade. Esses valores são intocáveis. Custa-me ouvir dizer “isto precisa de um pulso forte” ou “é necessário outro 25 de Abril”!

Portugal tem hoje um regime democrático e de liberdade, que já dura há 38 anos, sem qualquer tentativa de o fazer reverter. Nunca Portugal, na sua História de séculos, viveu um período tão longo de governos do povo.

Outra ideia que me ocorre é a necessidade de modificar algumas linhas mestras do comportamento português.

Por um lado, a ideia, muito disseminada entre os portugueses, de que a vida de cada um depende mais dos outros do que de nós próprios.

É neste ponto que julgo que os emigrantes portugueses podem dar uma excelente lição aos seus compatriotas. Aqueles que tiveram coragem de ir pelo mundo à procura da sua vida, aqueles que viveram a experiência de sociedades competitivas, exigentes, sabem bem o empenho, o sacrifício individual, a vontade necessária para vencer os obstáculos, para conquistar um lugar digno.

E eu vejo aqui, nesta comunidade portuguesa do Canadá, um exemplo a seguir.

Por outro lado, e ao mesmo tempo, também sabem bem a importância que sempre teve a solidariedade como atitude comum (de todos e de cada um), em relação a muitos dos amigos, vizinhos, compatriotas, que não conseguem ou não estão conseguindo chegar a um conforto mínimo.

Quer dizer, com vontade e solidariedade, já temos uma parte do caminho percorrido. Mas não chega!

Nas sociedades evoluídas de hoje, já não chega o empenho pessoal feito de qualquer forma; é preciso planear. Planear a vida, se assim se pode dizer.

E este planeamento é decisivo a partir dos primeiros anos, a partir da escola. Nós temos de estudar mais, temos de saber mais. Os níveis de escolaridade e de formação dos portugueses são perigosamente baixos. Dos mais baixos da Europa! E se há área onde progredimos na oferta, é exactamente na educação. Parece que a procura nem sempre se ajusta ao esperado. Também me custa muito ouvir dizer: “Ele já não precisa de mais estudos, eu só fiz a 4ª classe!”, ou “Já estou cansado de estudar!”, ou “Acabou-se o estudo, vou entrar no mercado de trabalho!”. Isto, como os portugueses que emigraram sabem, não faz sentido nenhum.

Ocorre-me ainda uma outra ideia. Quando será o dia em que poderemos dizer que nos congratulamos com o êxito dos outros? Compreendem o que eu quero dizer… O que eu quero perguntar aos meus compatriotas, em especial aos que nunca saíram de Portugal, como homem do 25 de Abril, é o seguinte: Quando deixaremos de menosprezar os sucessos dos portugueses que se esforçam e conseguem? Quando chegarmos lá, será uma mudança, uma vitória e um avanço.

As ideias são como as cerejas…

Ocorre-me agora perguntar - quando nos tornaremos verdadeiramente exigentes? Exigentes para connosco, é certo, mas também com os outros?

Depois de nos tornarmos exigentes connosco próprios, será que exigimos aos nossos filhos o mesmo empenho? E aos nossos amigos? E aos nossos colegas de trabalho? E aos nossos representantes, em quem votámos, seja no trabalho, seja nos cargos públicos? E aos nossos governantes, que juraram defender o povo, melhorar as condições de vida do povo?

Já falei no estudo, na exigência, na participação…

E como estamos de iniciativa? A iniciativa exige coragem. Será que estamos preparados para a incerteza, será que acreditamos em nós, na nossa capacidade, nas nossas ideias, no nosso projecto?

O que é que vos trouxe de Portugal, até estas terras tão longínquas? A coragem, a confiança em vós próprios, a capacidade de desafiar o mundo. Então precisamos de espalhar essa mensagem, de fazê-la chegar aos nossos compatriotas, a todos eles, ou, no mínimo, a uma grande maioria. Nesse dia, seremos capazes de vencer as adversidades. Só nesse dia!

O que eu quero dizer-vos é que a nossa vida não depende de ninguém, nem mesmo daqueles que escolhemos para nos governar. Se formos estudiosos, esforçados, solidários, exigentes e corajosos, quem nos governa também terá de o ser. Podemos transformar-nos, por nossa própria vontade, em pontos de inflexão e de mudança. E com isso mudaremos o nosso mundo…

Foi isso que fez o diplomata Aristides de Sousa Mendes, que quero saudar na pessoa dos seus dois netos aqui presentes. Parece-me que a ele se podem aplicar todos as qualidades que são necessárias para mudar o mundo – sabedoria, esforço, solidariedade, exigência e coragem. Ele demonstrou, mesmo nas condições adversas em que actuou, ser capaz de mudar o mundo. E é por isso que ainda hoje, passados mais de 70 anos, aqui evocamos o seu nome e a sua figura. Que ele nos inspire a todos!…

Que posso dizer-vos mais? Talvez concluir com a ideia que precisamos de homens e mulheres verdadeiras! Precisamos de pessoas diligentes nas tarefas que lhes cabem, assim como precisamos de sábios, de filósofos, de estadistas, de empresários, de pedagogos. Eu fico triste porque a democracia ainda não produziu uma cultura da responsabilidade, do esforço individual, da exigência e da coragem. Mas sei que as novas gerações, um dia, dirão: - Basta! E redobrarão o nosso orgulho de ser Portugueses!

E tenho alguma confiança de que esse tempo não vem longe…

Antes de terminar, quero deixar uma palavra de gratidão, em meu nome e em nome da minha mulher, à Associação Cultural 25 de Abril de Toronto pelo afectuoso acolhimento que todos nos têm proporcionado.

Muito obrigado a todos…

 

Viva a AC25A de Toronto!

Viva a A25A!

Viva o 25 de Abril!

Viva Portugal!


                                        Aspeto do bolo de aniversário preparado para a ocasião.




terça-feira, 23 de maio de 2017

CARTA PARA O VEIGA VAZ, CORRIA O ANO DE 1974!



A Revista da Associação 25 de Abril de Toronto, Canadá (Núcleo Salgueiro Maia) vem-se publicando todos os anos, procurando os seus editores incluir textos elaborados pelos convidados da A25A que se deslocam ou já se deslocaram a Toronto para acompanharem as comemorações do 25 de Abril. Constituiu já um importante repositório de pequenos depoimentos e histórias contadas por esses protagonistas. Organiza a Revista o nosso amigo Carlos Morgadinho.

Também eu tive o privilégio de ser o representante da A25A junto dos amigos do Núcleo Salgueiro Maia em 2012.

Na sequência desta presença, um dos meus textos para a Revista, publicado em 2014, foi uma justa homenagem ao meu amigo Luís Carlos Veiga Vaz, falecido nesse ano.



O Luís Carlos Veiga Vaz, conhecido entre nós por VV, acaba de nos deixar. Foi um capitão de Abril e um grande amigo.

O VV era do meu curso de Artilharia da Academia Militar. Foi um bom camarada, bem- disposto, sempre com uma boa anedota para contar, amigo do seu amigo.

O meu curso de Artilharia em 2004. O Veiga Vaz está ao centro, de gravata vermelha.

Também fizemos juntos o curso de criptólogos, em 1971-72. Este curso decorreu no Batalhão de Reconhecimento das Transmissões na Trafaria e juntou alguns dos futuros participantes no Movimento dos Capitães, entre os quais se encontrava o capitão Vasco Lourenço. Esta unidade acabou por se transformar num centro importante do Movimento, onde foram feitos e copiados alguns dos seus documentos.

Entretanto, eu fui mobilizado para Moçambique no Verão de 1973, tendo o embarque sido marcado para o dia 9 de Setembro, exatamente o dia da reunião de Évora do Movimento dos Capitães. Sendo-me impossível estar presente encarreguei então o Veiga Vaz de me representar e assinar, se fosse possível fazê-lo. Soube depois que ele se atrasou na chegada ao ponto de encontro junto ao Templo de Diana em Évora e já não recebeu o croquis que indicava o caminho para o local da reunião. Como ele faltou, também eu faltei…

A partir de então fizemos percursos diferentes, mas nunca deixámos de estar em contacto. Ele continuou a acompanhar o Movimento em Portugal e eu fui participar na primeira reunião do Movimento em Moçambique, realizada no dia 13 de Setembro em Nampula.

Neste texto gostaria de recordar uma carta que lhe enviei em 20 de Junho de 1974, imerso no mar de problemas que nos rodeavam por todos os lados.

Anunciando-lhe as notícias por que ele estava à espera, começava por lhe dizer que tínhamos muito trabalho, mas “poucos resultados positivos”. De facto, o que se verificava é que havia “de início resistências à nossa ação. Depois, e agora ainda, pouca convicção nas perspetivas novas”.

Dois dias antes, tínhamos enviado ao MFA de Lisboa uma mensagem com a seguinte passagem: “Vemos com preocupação falar-se muito em pureza de princípios do Programa do MFA, mas não executar no sentido da eficácia. Não quisemos fazer uma revolução romântica ou a brincar, muito menos uma revolução perdida. O Movimento deve organizar-se, e não dissolver-se. Sente-se nos sectores reformistas ligados às estruturas que quisemos destruir tentarem recuperar. O ideário do MFA deve ser dinâmico, sem paragens, sem transigir (…)”. (Nota: texto ligeiramente corrigido da sua linguagem telegráfica).

Eu calculava que o Veiga Vaz estava a par do que se ia passando com o MFA em Lisboa e pedia-lhe para transmitir as minhas notícias a outros amigos do Movimento e para que nos dessem as orientações que nos faltavam. Dava-lhe conta de como estava organizado o MFA em Moçambique – Comissão Coordenadora do MFA junto do Governador-Geral, Gabinete do MFA junto do Comandante-Chefe, ao qual eu pertencia, e Comissões Regionais, tendo todos os órgãos sido eleitos democraticamente. E acrescentava que estava lançada “toda a infraestrutura do Movimento”, mas que “começava aí todo o trabalho, pois toda a doutrina e consciencialização dependiam do Gabinete”.

A carta abordava em seguida uma nova questão, a Frelimo, como movimento nacionalista de Moçambique: “A Frelimo é um movimento emancipalista que tem a seu favor: uma luta heróica de dez anos; reconhecimento internacional; ideologia popular; aceitação incondicional do povo. Para além disso, possui: uma verdadeira força no terreno de luta; uma consciencialização bem marcada”.

Confessava-lhe então que lhe escrevia para que “tu aprecies sozinho ou em conjunto com outra malta e nos digam as vossas ideias” e “se puderem dizer opiniões do MFA, isso será excelente”. Quanto à questão militar, e para que não restassem dúvidas, acrescentava depois que as tropas “acabaram a guerra”, pois ela “deixou de ter significado para o povo português e para o povo moçambicano”. Se o meu amigo queria que lhe relembrasse as razões para o que estava a acontecer, não era muito difícil: “As cartas que os militares recebem, as notícias que ouvem, as convicções pessoais que afloram, as tendências pacifistas do homem, a falta de substrato desta guerra – não há Pátria em perigo, não há inimigo invasor – tudo isto se aglomera para não haver moral, não haver disciplina possível e estar a hierarquia posta em causa”.

Também na mensagem enviada ao MFA de Lisboa atrás referida, terminávamos desta maneira: “Os povos do ultramar correm verdadeiro perigo, com possibilidades de racismo, tribalismo, neocolonialismo e confrontos nos centros populacionais. A nossa missão nova e nobre é evitar tais possibilidades, e a nossa intenção firme é descolonizar, reconhecer a autonomia dos povos e ajudar”. (Nota: texto ligeiramente corrigido da sua linguagem telegráfica).

Por isso, a carta ao Veiga Vaz refletia estes sentimentos, quando lhe dizia: “Inverteram-se os dados, (mas) parece que muita gente não deu por isso; esqueceram-se os desejos do povo português. O fim da guerra colonial pode vir longe ou pode estar iminentemente perto (…)”.

E continuava: “Compreendemos porém que nada ou pouco aqui podemos fazer. O problema é político e não militar e hão de ser os políticos a cagar a solução. E, ou eles o fazem depressa ou as Forças Armadas, mais uma vez, estão postas em xeque. Nisso, o MFA tem de meditar. E para meditar precisa de se unir. Está aqui o terceiro problema”.

Por estes dias em que eu fazia ao meu amigo Veiga Vaz um extenso balanço da nossa ação e dos nossos pontos de vista, realizávamos uma reunião alargada do MFA em Nampula e o Gabinete apresentava à Assembleia um documento onde afirmávamos: “O povo português quer ser livre. Está consciente do que significou a submissão do seu querer, durante quase cinco decénios, a interesses estranhos aos da comunidade portuguesa. Manifestou-o inequivocamente nos dias de euforia que se seguiram ao 25 de Abril. A experiência passada mostrou-lhe que essa liberdade nunca será possível enquanto o seu nome e a sua vontade forem utilizados para oprimir e retirar a liberdade a outros povos. (…).

Está em jogo o prestígio da nação portuguesa e o próprio prestígio das Forças Armadas. O MFA reconhece perfeitamente que o prestígio das Forças Armadas, tão duramente abalado antes do 25 de Abril, se há de reconquistar (…) na medida em que as Forças Armadas forem capazes de assumir o novo objetivo que se propõem à realização da paz e à restituição da dignidade aos povos da Guiné, Angola e Moçambique, denunciando, se necessário, todas as práticas que no seu seio sejam consideradas atentatórias dos novos ideais (…)”.

Chegava agora a vez de transmitir ao Veiga Vaz, companheiro que me escutava à distância e que aliviava as minhas inquietações, outro assunto: “O problema que vem a seguir (…) é o bem do Povo. O Povo tem as costas largas. Já o Marcelo fazia o que fazia pelo bem do Povo! E até a PIDE. A Revolução foi feita porque nós interpretámos o sentir da esmagadora maioria do Povo Português. Repara – interpretávamos o que o Povo não queria: a opressão, o fascismo. Mas saberemos nós interpretar o que o Povo quer? Melhor, saberemos dar-lho? Parece-me bem que não”.

Apresentava-lhe finalmente uma última questão: “Vamos ao próximo problema: autodeterminação e independência. Autodeterminação pode significar neocolonialismo. Mas que poderá um MFA formado por uma dúzia de militares politizados fazer, contra a sua própria ultrapassagem? (…)

Resta de tudo isto uma constante. E aí vai mais um problema – A PAZ. A PAZ é que é o autêntico querer do Povo”.

E num desabafo: “Acabo de ouvir que as principais preocupações da França são a inflação, o voto aos 18 anos e as escutas dos telefones. Abençoado país que teve e manteve, em tempos, uma guerra colonial!”.

Os sentimentos que expressava livremente ao meu amigo Veiga Vaz, estavam de acordo com os que o Gabinete do MFA de Moçambique expressava oficialmente ao MFA de Lisboa, sem obter a resposta que esperávamos – que as conversações com a Frelimo estavam no bom caminho… Por isso alertávamos os nossos camaradas, em mensagem de 1 de Julho, uma semana depois da carta: “É na verdade preocupante e intolerável a situação de impasse a que se está chegando. Sabe-se que, existindo uma evidente contradição entre os objetivos que a política pretende atingir e a realidade que existe em Moçambique, se irá dar uma rotura dentro das Forças Armadas. E somos de parecer que quanto mais abaixo na escala hierárquica essa rotura acontecer piores virão a ser as consequências. De qualquer modo está iminente uma tomada de posição dos escalões inferiores”.

Alguns dias depois recebia resposta do meu amigo, evidentemente sem as soluções milagrosas que eu lhe pedia. Ninguém, naqueles dias de sobressalto, sabia quais eram as melhores soluções e muito menos, como se caminhava para elas. O tempo, que todos sabiam dever medir-se em dias, não deixaria de ir desenhando a solução que era imperativa. Um passo de gigante foi dado um mês depois, na declaração do Presidente da República e na Lei 7/74 de 27 de Julho, que declarava o reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação e independência.

E nós, envolvidos no tumulto daquele período decisivo, acompanhámos o dia-a-dia de um tempo escaldante, em que cada decisão contribuía para um célere encerramento da questão que nos movia e que vinha de muito longe, dos confins da nossa história…

Agora, que o meu amigo Veiga Vaz nos deixou, posso recordar quanto é importante ter amigos a quem possamos abrir a nossa alma e a quem possamos recorrer, nem que seja para ouvirem os nossos desabafos.


Muito obrigado do coração, meu caro VV.


Em Toronto, com o casal Francisco Sousa Mendes,
neto de Aristides Sousa Mendes, também convidado
pela A25A de Toronto nesse ano de 2012.

sábado, 22 de abril de 2017

PARA MIM, O 20º ANIVERSÁRIO DO 25 DE ABRIL FOI DIFERENTE



Quando comemorámos os 20 anos do 25 de Abril, em 1994, a A25A encarregou-me de fazer a comunicação principal na sessão solene.

Foi esta a comunicação que apresentei:



Meus camaradas de Abril,

Encarregou-me a Associação de falar nesta cerimónia de abertura das comemorações do vigésimo aniversário do 25 de Abril. Que o fizesse como participante e capitão de Abril e como estudioso (do ponto de vista da História) do facto que comemoramos.

Ao fazê-lo, agradeço penhorado a confiança da Associação e procurarei, dentro das limitações que me são próprias, tecer algumas considerações que presumo relevantes.

Cartaz comemorativo do 20º aniversário do 25 de Abril,
edição da A25A, autor Júlio Pomar.

Temos perante nós um acontecimento histórico, realizado há vinte anos, por um grupo alargado de militares. O facto concreto, ocorrido a 25 de Abril de 1974, relaciona-se historicamente com a deposição, através do uso da força, do regime então vigente. Na História das sociedades, há factos destes – definidos, concretos, incontornáveis. Mas não há factos históricos isoláveis. Eles estão sempre numa sequência de outros factos, precedentes e consequentes, tanto igualmente localizáveis, como impercetíveis ao observador desatento. Quando nós, membros de uma civilização, de uma sociedade, de uma comunidade, nos movimentamos, arrastamos pelo caminho marcas profundas, sinais extensos, heranças longínquas. O que é verdadeiramente aliciante na compreensão da trajetória histórica do homem (individual ou social) é a tentativa de penetrar nas esferas de influências mútuas, discernindo o breve tempo de um facto com o peso da sua específica intensidade e a dimensão de outros tempos, de duração variada e interferência complexa.

O 25 de Abril de 1974, que vamos comemorar é, em si, um facto breve de volumosa espessura. Não tem, em larguíssimo tempo histórico, antes ou depois, outro facto que possa sobrepor-se-lhe em termos de influência sobre o destino do homem português.

Aliás, comparável em termos de brevidade e espessura histórica, só existirão meia dúzia de dias na História de Portugal. Será a assinatura do Tratado de Zamora que inicia formalmente a existência de Portugal, a vitória de Aljubarrota, que adia por duzentos anos a união ibérica, a conquista de Ceuta, que lança Portugal na aventura dos novos mundos, a Restauração, que recupera, para sempre, a independência perdida sessenta anos antes, a Revolução vintista, que proscreve o Antigo Regime, e a implantação da República, que extingue um sistema com mais de 750 anos.

O estudo histórico tem a fantástica capacidade de permitir viajar no tempo. É certo que o historiador, como homem, cidadão e participante do seu próprio tempo, não pode, material e espiritualmente, deixar de carregar a canga da época em que vive, mas pode, quantas vezes recorrendo a um engenhoso esforço de imaginação, colocar-se em pontos variados da fita do tempo, permitindo-se perscrutar o passado ou olhar o futuro, cujo desenlace afinal já conhece. Esta é, quase sempre, a tarefa do historiador: escolher um ponto no tempo e, a partir daí, encontrar as linhas convergentes que conduziram a esse ponto e explicar como ele se projetou e que consequências ou marcas deixou na sociedade em que ocorreu. Contudo, quanto mais coincidência houver entre o ponto escolhido e um facto histórico marcante (ou quando rigorosamente coincidirem - o que não é raro nas opções dos historiadores), mais longos devem ser os recuos e os avanços no tempo objeto de estudo, porque são os factos marcantes que mais prolongadamente interferem no processo histórico da sociedade.

Quero com isto dizer que observar o 25 de Abril de 1974, sob o ponto de vista da História, requer necessariamente um recuo profundo e um avanço prolongado no tempo da sociedade portuguesa.

Requer sem dúvida a análise do regime que o tornou inevitável, da sociedade que o fundamentou, do grupo que o concebeu e dos homens que o executaram. Mas requer igualmente a análise do regime que gerou, da sociedade que lhe sucedeu, dos grupos e dos homens que souberam (ou não souberam) potenciar as oportunidades dele saídas. Mas como os momentos altos da História se repercutem extensamente, é sempre com cautelosa ponderação que os historiadores se aventuram nas análises dos tempos recentes.

A ciência histórica impõe a inquestionável exigência da imparcialidade. E embora fazer história seja sempre fazer escolhas, é com verdadeiro zelo que se procura a objetividade das opções. Nenhum historiador de mérito tentará menosprezar a importância histórica do 25 de Abril de 1974. Poderão explicar, interpretar ou entender de forma diferente o complexo histórico que justificou a sua emergência ou analisar distintamente o processo a que deu origem. Mas todos têm estado concordantes, em relação à decisiva importância da ação militar que marcou o reinício da democracia em Portugal.

Por nós, que jamais ousaremos tomar o título de historiador, respeitando embora os princípios essenciais do labor histórico, não enjeitamos a deliberada opção pelos traços que fazem do 25 de Abril o passo primordial da recuperação da nossa liberdade e da implantação da nossa democracia. Também não escondemos, correndo o risco da história apressada (mas tranquilos por sabermos do seu carácter provisório), que duas causas principais estiveram na base do movimento militar que conduziu ao 25 de Abril: a guerra colonial e (afinal, causa da causa, ou talvez causas de influência mútua) a natureza do próprio regime do chamado "Estado Novo". Se quiser agora, ultrapassando porventura as normas difusas da ciência histórica, mas optando por um pensamento empenhado, saber da justiça da causa que guiou os capitães de Abril, deveria perguntar: Quem optaria por voltar a um regime autoritário, de verdade única, de absoluto controlo da pessoa humana? Quem gostaria de voltara um regime de um só partido, depositário dos únicos valores válidos? Quem desejaria reconstituir um sistema liberticida, onde os direitos e as garantias dos cidadãos se concebam em função do próprio sistema e dos seus próceres? Quem admitiria o regresso da polícia política, da ameaça permanente, das perseguições, do esmagamento das oposições, das prisões políticas, dos tribunais plenários, das medidas de segurança, da militarização da juventude e do cidadão? Quem suportaria de novo a censura, a propaganda, a polícia do espírito? Quem toleraria de novo o regime da "superstição das obras", feitas à custa da dignidade dos cidadãos? Quem permitiria o regresso do regime da emigração massiva, da ignorância, do medo, da doença, do analfabetismo e da pobreza? Quem conseguiria viver hoje num país isolado, acerbamente criticado e condenado nas mais diversas instâncias internacionais? Quem desejaria voltar ao regime da guerra?

A guerra. Detenhamo-nos um pouco sobre a questão da guerra. A História tende a deixar esfriar os factos para os incluir nas suas preocupações. É um erro que a sociedade seja arrastada pela mesma tendência. A guerra afetou diretamente cerca de um milhão de portugueses e indiretamente poucos terão sido os que lhe ficaram completamente imunes, isto durante um longo período de treze anos. Chega a ser incompreensível como podemos encerrar dentro de nós próprios, com fecho de sete chaves, a memória de um tempo tão marcante. Como se a guerra fosse uma vergonha individual ou um peso de consciência de cada um de nós. As guerras, podendo ser de natureza diferente, têm todas as mesmas características: são violentas (não é a guerra o uso da violência na máxima escala?), mortíferas e suscetíveis de encobrir fenómenos que excedem o direito e a razão. A guerra (e a guerra colonial é bem um exemplo disso) resulta de uma decisão política. Não são as Forças Armadas que fazem a guerra. As Forças Armadas cumprem missões de guerra. Também não fazem a paz - implementam acordos ou decisões de paz. Não é por isso razoável julgar as Forças Armadas e os seus membros, da mesma forma que se deve julgar o regime político que prolongou irracionalmente a guerra. De facto, as Forças Armadas, com imenso esforço, sacrifício, inteligência e capacidade, deram ao poder político treze anos de folga, de espera, de cobertura, para encontrar uma solução política, negociada, aceite internacionalmente. Como é possível que as Forças Armadas demonstrem hoje injustificadas suscetibilidades relativamente à sua participação na guerra, quando, no cumprimento do seu dever profissional, demonstraram possuir capacidades de excecional valor, que lhes permitiram resistir para além do que seria razoável e justo pedir-lhes? Como podem as Forças Armadas sentir-se hoje questionadas, quando se condena o excessivo prolongamento da guerra colonial ou mesmo a sua emergência?

É bem certo que foram os capitães de Abril que impuseram, mesmo contra a opinião de outros militares, o fim das hostilidades nas colónias portuguesas. Mas nenhum militar, mesmo daqueles que não estiveram empenhados no 25 de Abril, com razoável ponderação, pode continuar a sustentar a justeza da política colonial do regime derrubado. O 25 de Abril, relativamente à guerra, veio impor uma solução com muitos anos de atraso. É este atraso (e em História os atrasos pagam-se normalmente muito caro), que justifica amplamente as soluções de estreita manobra política conseguidas para o processo de descolonização. Soluções que, apesar de tudo, deixaram em aberto imensas possibilidades de cooperação, só muito fugazmente aproveitadas, desde então até à atualidade.

Em suma, os capitães de Abril, através de um complexo processo de aproximação e envolvimento coletivo, acabaram por tomar consciência do cruzamento dos dois erros que referimos - a natureza do regime que oprimia os portugueses e a injustiça e inutilidade de prolongar uma guerra sem sentido. Foi essa consciência que os conduziu ao 25 de Abril. Quando ocorrem roturas a este nível, salva-se, historicamente, quem mais oportunamente compreende as contradições em que está envolvido e encontra para elas uma solução. É essa a grande virtude do Movimento dos Capitães.

No Movimento dos Capitães, como trabalhos de natureza sociológica já realizados o demonstram, estiveram representados todos os grupos sociais incluídos nas Forças Armadas - aí estiveram filhos de agricultores, de profissionais liberais, de militares, de proprietários, de funcionários públicos, de comerciantes, de empregados qualificados, de operários e artesãos. A sua composição social acaba por ser o espelho da própria sociedade portuguesa, o que de alguma forma reflete a vontade dessa sociedade. De facto, mudar o regime e pôr fim à guerra era, isso sim, um verdadeiro "imperativo nacional', que os militares de Abril cumpriram como um dever e que a História para sempre reconhecerá.

Resta-nos agora, colocados que estamos num ponto fulcral da história portuguesa recente, em 25 de Abril de 1974, espreitar o futuro que com ele e a partir dele fomos construindo, em Liberdade. A liberdade, retomada pelo povo português a partir de 25 de Abril de 1974, é o fundamento do regime atual. Mas a liberdade, por si, não soluciona os problemas de uma sociedade. São os cidadãos, munidos da liberdade como instrumento, que transformam o sistema a que pertencem, que interferem nos caminhos do seu próprio destino, que se aproximam das soluções mais desejadas. Não há liberdade sem cidadãos, como não há cidadãos sem liberdade. Os capitães de Abril, compreendendo-o desde o início, souberam, num gesto historicamente incomparável, deixar nas mãos dos cidadãos, o que aos cidadãos pertencia.

Não podemos lamentar o regime da liberdade. Devemos, sobretudo, intervir, a partir da nossa liberdade. Propor, transmitir, lutar pelos valores em que acreditamos; denunciar os abusos, os esquecimentos, os desvios; participar na mudança, na alternativa, na diferença. Ser livre, verdadeiramente livre, é talvez mais difícil do que o não ser - no que exige de responsabilidade, de empenhamento, de esforço quotidiano. Mas é isso a essência de um regime baseado na liberdade, de um regime democrático. Em democracia não deve haver cidadãos isolados ou isoláveis. E quando os cidadãos tendem a isolar-se ou a renunciar à relação com outros, é porque a democracia está começando a degradar-se. Duas liberdades isoladas podem, no limite, anular-se; duas liberdades conjugadas potenciam a Liberdade e movem a sociedade.

A democracia portuguesa, filha do 25 de Abril, é demasiado jovem (sobretudo, do ponto de vista da História de Portugal) para que possamos, sob qualquer pretexto, considerá-la esvaída ou exausta. A democracia, com 20 anos de existência, é já, para a nossa geração, um raro privilégio na história portuguesa. Cabe-nos, a todos, fazer do 25 de Abril de 1974 um verdadeiro ponto de viragem e inflexão da nossa história comum, como o dia em que varremos, em definitivo, da herança dos portugueses, as lágrimas de mais opressões.

A História, ciência do homem, assinalará o facto em páginas brilhantes.


Obrigado.


domingo, 15 de janeiro de 2017

VOZES DE ABRIL NA DESCOLONIZAÇÃO



Em 2015, o ISCTE e a A25A publicaram um livro com o título “Vozes De Abril na Descolonização”, baseado em entrevistas a três militares de Abril, um por cada território, efetuadas por uma equipa do ISCTE, no âmbito de um projeto mais vasto apoiado pela A25A. Foi coordenado por Ana Mouta Faria e Jorge Martins.

Os militares entrevistados são:
Pela Guiné: Carlos de Matos Gomes
Por Angola: José Villalobos Filipe
Por Moçambique: Nuno Lousada.

Tive o privilégio de apresentar o livro, e julgo que talvez seja oportuno publicar aqui o texto respetivo.





(…)
Como já está esclarecido o contexto do livro e a sua inserção num projeto do ISCTE e da A25A, será melhor passarmos à sua análise.

A Apresentação do livro é feita pela Prof.ª Ana Mouta Faria, onde procura esclarecer o contexto do projeto e deste livro em particular.

Concentrando-se nos três entrevistados, diz-nos o seguinte:

Existem entre todos, cinco traços comuns:

- Integrarem as Forças Armadas, enquanto profissionais;
- Terem cumprido várias comissões de serviços nos teatros de operações africanos;
- Terem larga experiência de guerra;
- Terem aprendido o respeito pelo adversário combatente e o reconhecimento da legitimidade das aspirações emancipalistas;
- Terem consciencializado que a única saída para a guerra colonial era política e não apenas militar.

Mas existem também cinco diferenças muito acentuadas:

- Pertencem a duas gerações distintas;
- São de diferentes Ramos das Forças Armadas;
- São diversos os momentos de adesão ao movimento político-militar revolucionário;
- Traduzem a sua adesão em diferentes graus de compromisso com o Movimento;
- São diferentes as características de cada personalidade.

Também há uma característica comum aos três entrevistados: A partir de Abril de 1974 vão ser nomeados/eleitos para funções político-militares nos respetivos territórios e vão assumir funções de maior ou menor responsabilidade depois do regresso a Portugal.

Os temas anunciados na Apresentação que irão ser abordados nas entrevistas são os seguintes:

- Participação no Movimento dos Capitães / MFA (sobretudo nos teatros de operações);
- Génese e estruturação do Movimento dos Capitães / MFA nos territórios;
- Impacto do 25 de Abril em cada lugar;
- Relacionamento e contactos com os movimentos nacionalistas;
- Conversações prévias e Acordos diplomáticos da descolonização;
- O dia da independência.

(…)

Na Introdução, sobre a génese do MFA, os autores procuram dar-nos uma ideia geral das circunstâncias do movimento conspirativo nas Forças Armadas, e mais particularmente nos territórios em guerra.

Dizem-nos que essencialmente o percurso conspirativo vem do Congresso dos Combatentes, passa pelos decretos das capitães, segue com as reuniões e organização das comissões, passa pelos acontecimentos da Beira e seu significado e desemboca no 25 de Abril.

Indicam-nos alguns nomes do movimento nas colónias, Guiné, Angola e Moçambique, e passam depois ao pós-25 de Abril.

Fazem um apontamento sobre a organização do MFA nos vários territórios e sobre o papel que assumiu, centrando-o em dois objetivos principais:

  •            Controlar o desmoronamento das Forças Armadas;
  •    Garantir uma transição pacífica até ao cumprimento dos acordos de independência.


Seguem-se então as entrevistas, que são bastantes desiguais.

A mais extensa, articulada e consequente é a do Carlos de Matos Gomes, em relação à Guiné. Ele foi um dos elementos fundamentais na constituição do movimento dos capitães, na reação aos problemas que se levantaram ao seu percurso, nos acontecimentos do 25 de Abril e sua sequência, com a tomada do poder pelo MFA, e na condução dos contactos com elementos do PAIGC, pelo menos até ao final de Julho de 1974, altura em que regressou a Portugal.
Como é próprio da sua personalidade, aproveita a oportunidade para falar do que pretende, para esclarecer posições, para aprofundar razões, para deixar mensagens importantes.

Fala da sua participação no movimento dos capitães/MFA, da génese e estruturação do MFA na Guiné, no impacto do 25 de Abril no território, no relacionamento e contactos com elementos nacionalistas do PAIGC no território.

Da Guiné, já tínhamos as memórias do Jorge Golias, publicadas em 2005 com o título “Histórias de Guerra” e do Duran Clemente, texto publicado em 2014 no facebook da A25A, com o título “DESCOLONIZAÇÃO - A Guiné, o 25 e Abril e o reconhecimento da sua independência” (Nota: foi entretanto publicado o livro de Jorge Sales Golias, A Descolonização da Guiné-Bissau e o Movimento dos Capitães, Colibri, 2016). 

Temos, agora, felizmente, a versão do Carlos de Matos Gomes.

A entrevista do Villaboas Filipe é muito interessante. Desde logo, porque é um elemento do MFA de Angola a falar, o que tem sido raro. Com exceção do Pezarat Correia, não conheço outros testemunhos.

Mas a história é substancialmente diferente da história do Matos Gomes.

O Villalobos, também por ser da Força Aérea, não pertenceu ao Movimento dos Capitães. A sua participação é posterior ao 25 de Abril, quando foi nomeado (e depois eleito) para representar a Força Aérea no Gabinete do MFA que se constituiu em Angola. Ele explica todas as circunstâncias na sua entrevista.

Este Gabinete do MFA em Angola é muito surpreendente. Integrava seis oficiais do MFA, sendo dois do Exército, dois da Marinha e dois da Força Aérea! Julgo que será um caso único!

Em Moçambique, a primeira comissão, logo a seguir ao 25 de Abril, vinha do movimento dos capitães, que era aberta a elementos dos outros Ramos, mas que nunca integraram a comissão. Quando foram constituídos os órgãos do MFA, ficou o Gabinete junto do CC, com três oficiais do Exército, um da Marinha e um da Força Aérea, e a Comissão junto do GG, com quatro oficiais do Exército (um miliciano), um da Marinha e um da Força Aérea.

Na Guiné, a Comissão Coordenadora ficou constituída pela paridade de 5+4+4, sendo o núcleo permanente de 2+1+1.

O Villalobos fala da sua relação com o MFA, da génese e estruturação do MFA em Angola, do impacto do 25 de Abril no território, do relacionamento e contactos com os movimentos nacionalistas e também das conversações prévias e dos acordos. Aproveita para ir fazendo uma história das dificuldades, das incongruências, do confronto de projetos, do comportamento das pessoas e dos comandantes, das fases do processo de transferência de soberania em Angola, pelo menos até ao seu regresso a Portugal, em fins de Junho de 1975, mais de um ano depois do fim da sua comissão.

O Villalobos tem uma visão muito lúcida sobre a situação, descrevendo um quadro muito próximo daquilo que foram os tremendos desafios que se colocaram ao MFA de Angola.

Acho que precisamos de mais testemunhos deste processo.

Finalmente o Nuno Lousada fala de Moçambique. A sua entrevista concentra-se no conhecido episódio de Lusaca, onde ele ficou depois das negociações, enquanto em Lourenço Marques, um grupo de brancos extremistas e irresponsáveis agia contra a nova realidade numa ação que podemos classificar de “crime sem perdão”.

É pena que o Nuno Lousada não tivesse querido abordar outras questões que lhe foram colocadas e limitasse a entrevista a esse episódio. Paciência! Pode ser que surjam ainda outros testemunhos, no âmbito deste projeto. Eu próprio já fui entrevistado e espero que outros protagonistas o tenham sido ou venham a ser.

Voltando ao livro que aqui apresentamos, vem, depois das entrevistas, uma cronologia comparada dos vários processos, tentativa que me parece inédita e que resulta muito elucidativa. Julgo que carece de novos factos, mas esta primeira versão transmite já uma interessante possibilidade de acompanhar os acontecimentos em cada um dos territórios em estudo, assim como em Portugal.

Na última parte, os autores fazem uma síntese dos contributos de cada um dos entrevistados para o conhecimento dos processos de independência, muito útil para melhor conhecermos quem eles são e o que fizeram.




sexta-feira, 18 de novembro de 2016

UM SOLDADO RAZOÁVEL


Quando deixei a vida ativa e passei à situação de reforma, os meus amigos quiseram fazer-me uma homenagem pública. É claro que os dissuadi, mas em contrapartida organizaram um jantar na A25A ( 21 de Março de 2007) onde estiveram presentes dezenas de amigos, encontro que recordo com muita emoção.
Na altura li um texto que deveria chamar-se “Um soldado razoável”, mas que foi publicado no Referencial, boletim da A25A, como “O soldado é um persuasor”, o que não me parece mal.
Foram as seguintes as minhas palavras:


 
Na A25A no dia 21 de março de 2007
“Queridos amigos e meus camaradas

As palavras que escolhi para vos dizer não exprimem os meus sentimentos de gratidão. Falta-me habilidade literária para traduzir o que me vai na alma. Peço-vos que as aceitem como a forma mais genuína que consegui. Todos vós sois testemunhas do meu reconhecimento e credores do meu afecto.
Permitam-me então que vos apresente uma receita para fazer um soldado razoável.
Houve um tempo em que o Exército me deu a incumbência de fabricar soldados. Eu sempre tive a ideia, moldada pelas circunstâncias, de que era mais eficaz fazer de todos, soldados razoáveis, do que fazer meia dúzia de bons soldados e uma multidão de incapazes. Talvez possa hoje ter a ideia de que procurei reproduzir-me, nos meus instruendos.
Pois qual é a receita para fazer um soldado razoável?
Pega-se num homem em bruto. Vem de uma zona rural, traz linhas angulosas de pensamento, mentalidade, hábitos e horizontes. A primeira tarefa é... afeiçoá-lo.
Muitos destes vestígios permanecerão para sempre, mas não há outra alternativa – esse lastro só deve reaparecer, eventualmente, em situações limite.
Porém, e ponto importante, tudo aquilo que não prejudicar a razoável solução, pode continuar a fazer parte do fundo do nosso homem. Não se pretende inventar nenhum homem novo.
A certa altura, há que mandar o homem para a guerra, destino do verdadeiro soldado... Foi isso que pensou o nosso ido regime, quando o nosso ditador caminhava para lá dos seus 70 anos. Pois que melhor escola se não a guerra nas colónias? E foi assim que o soldado razoável se viu, como tantos de vós, nessa aventura de vida a muitos milhares de quilómetros da sua terra. Procurou sempre que os homens que lhe meteram nas mãos se comportassem como militares razoáveis -  sensatos, dignos, cumpridores.
Mas quando a guerra se prolongou para lá do razoável, esses soldados, moldados no bom senso da vida e das opiniões, acharam-se perante o dilema de obedecerem à sua consciência ou aos ditames do seu juramento. Foi um momento complicado, mas de breve hesitação. Tinham aprendido comigo que há sempre uma hora em que o homem decide sozinho. Os meus soldados, aqueles que eu formei (aqueles que todos vocês formaram) responderam firmemente à chamada que lhes fizemos. Optaram pelo cheiro da liberdade. Desejaram secretamente o triunfo da liberdade. Lutaram pela vitória da liberdade.
E no dia que se escolheu, todos agiram firmemente. Há dias em que o soldado razoável, age como um bom soldado. E os dias de grandes causas, são os melhores para testar as suas capacidades.
Nas palestras de sexta-feira era comum eu dizer a todos – não te imponhas pela espingarda. O soldado é um persuasor. Deve explicar-se tanto quanto possível e, sobretudo, espera que quem manda explique os actos que lhe impõe.
Um dia, ele próprio descobre que a liberdade pertence ao povo, e que a si, só pertence defendê-la e não oferecê-la. Nem invocá-la em seu favor ou exigir-lhe recompensa. A liberdade é a marca da sua conquista e da sua servidão.
Como soldado, aprendi, e assumi, os limites da minha vida. Procurei convencer-me do exacto papel que me era destinado – optei por continuar soldado, cumprindo deveres que embora novos, não deixavam de ser a continuação do percurso de sempre.
Foi assim que cheguei ao Arquivo Histórico Militar.  
Preferi continuar soldado às alternativas que me ofereceram. Porquê? Nem eu sei explicar. Porque era o meu ambiente e porque era aí que estavam os meus camaradas. Porque não tinha aprendido a viver em outro lugar.
E querem saber o que aconteceu? Tive oportunidade não apenas de contactar com camaradas do meu tempo, estes para quem eu agora falo, mas também com gente mais nova e sobretudo, gente muito mais antiga. Podem crer que conheci centenas de camaradas, e em muitos encontrei afinidades, especialmente quando verifiquei que também eles tinham sido soldados razoáveis.
Eles jaziam ali, em prateleiras infindas, esperando porventura que algum camarada do futuro compreendesse como e porquê eles tinham cumprido o seu dever, nas circunstâncias que a sua vida e o seu tempo lhes proporcionaram. De certa forma, constatei aquilo que era minha convicção - eles constituíam o suporte do nosso tempo e da nossa atitude, da compreensão dos nossos dias e das nossas raízes, da nossa tradição e da nossa capacidade de entendermos o presente. Aprendi imenso com eles.
Essa aprendizagem ditou-me um dever, que me impus – é necessário preservar a memória que todas essas gerações nos podem transmitir. O esforço de salvaguarda deve ser assumido por todos os responsáveis. Só quando compreendermos que não estamos sós, porque inúmeras gerações sustentam as nossas convicções e os nossos princípios, que de certa forma vigiam as nossas opções e nos apontam o caminho, é que poderemos tirar da vida todas as lições que devem moldar o nosso tempo.   
Estou certo que todos esses nossos camaradas continuam disponíveis para nos darem lições de vida. Experimentem conhecê-los e talvez consigam dar solução a muitas das dúvidas que hoje ainda vos assaltam. São lições da História, que eu procuro não desprezar.
Foi gratificante verificar que, apesar de tudo, o Exército tratou de preservar memórias de si e dos seus. Claro que há imensas clareiras, mas o essencial desse imenso património existe e espera pelo dia da descoberta.
Contudo, quando me achei naquele lugar, não me bastou, como soldado razoável, cópia que era dos soldados saídos das minhas mãos, fazer o óbvio – continuar a recolher em rotinas anteriores, a papelada que ia chegando. Pretendi tornar-me garante da memória de uma geração especial, da geração que fez transitar Portugal da antiguidade para a vida contemporânea, do mundo obscuro para o mundo moderno – a nossa geração, esta que aqui está representada.
O meu trabalho no Arquivo Histórico Militar destinou-se, também, a salvaguardar a memória da nossa geração e daquilo que foi o nosso contributo (de que nos orgulhamos) para a História do nosso país.
Hoje há uma certeza que eu tenho e vos transmito: está preservada a memória desta geração de transição. Está preservada em níveis que muito ultrapassam os níveis de qualquer outra geração. A guerra colonial, o 25 de Abril, a transição democrática terão um peso não apenas como factos decisivos que foram, mas também no testemunho disponível que deixam no Arquivo Histórico Militar. Isso ninguém, no futuro, vai poder esconder. Essa foi uma das minhas orientações essenciais, na convicção de cumprir também a minha responsabilidade perante o Exército. Pelo que fiz nesse sentido acho que a vossa aprovação é merecida. Quanto ao resto que me quiseram e estão a transmitir, vou considerá-lo como um incentivo e como a certeza de grandes amizades de que muito me orgulho.

Podem crer que é, porque sempre foi, um soldado razoável que vos diz, do fundo do coração – muito obrigado”.