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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O BATALHÃO DE INFANTARIA 10 NA GRANDE GUERRA



A quinta e última parte do texto sobre o Batalhão de Caçadores 10 de Bragança e a sua participação na Grande Guerra leva-nos das vésperas do 9 de Abril até ao regresso a Portugal. É um percurso árduo, violento e triste.
Chegado aqui, atrevo-me a sugerir à Câmara Municipal de Bragança (onde não conheço ninguém) a publicação do Relatório do major António José Teixeira, devidamente transcrito, anotado e comentado. Seria uma bela homenagem aos soldados do Nordeste Transmontano que participaram na Grande Guerra.


Parte 5:
Desenho de um gerador de fumos alemão
 incluído no relatório do BI 10,
 desenho do major António José Teixeira, AHM
As palavras do comandante-chefe das forças germânicas, general Paul von Hindenburg, escritas mais tarde nas suas memórias (Out of My Life, London, 1920, p. 352) dão-nos conta das condições propícias que até a meteorologia proporcionou:
No Inverno, a área do vale do rio Lys ficava inundada numa larga extensão, e na Primavera, não passava muitas vezes de um pântano, por semanas a fio - um verdadeiro horror para as tropas que estavam nas trincheiras nesta altura (…).
Era perfeitamente inaceitável pensar na realização de um ataque antes do vale do Lys se tornar transponível. Em circunstâncias normais de clima, só poderíamos esperar que o solo ficasse suficientemente seco, em meados de Abril.
Mas pensei que não seria possível esperar até essa altura para começar o combate decisivo no Ocidente. Tivemos de contar com as perspetivas de intervenção americana.
Não obstante estas objeções ao ataque, tínhamos o plano detalhado, pelo menos teoricamente (…).
Esta hipótese estava assente nos finais de Março. Logo que vimos que o nosso ataque a Ocidente era inevitável, decidimos iniciar as nossas operações na frente do Lys.
Uma pergunta dirigida ao Grupo de Exércitos do Príncipe Herdeiro Rupprecht, trouxe a resposta de que, graças à Primavera seca, o ataque em todo o vale do Lys se tornara viável (…).
Em 9 de Abril, aniversário da grande crise em Arras, as nossas tropas passaram das suas lamacentas trincheiras na frente do Lys para a frente de Armentières a La Bassée.

Entretanto, do lado aliado, já ninguém tinha dúvidas da iminente ofensiva alemã. Contudo, as tropas portuguesas, exaustas pelas condições que temos observado, iam ainda ser submetidas a mais um período de intensos trabalhos, logo que entraram nas linhas. De facto, e segundo o relato que seguimos:
As linhas de Ferme du Bois encontravam-se num estado desgraçado, arrasadas, lamacentas, com as passadiças desfeitas em muitos sítios; os nossos pobres soldados, enterrados no lodo, andavam às apalpadelas, com os postos muito diluídos em relação ao efetivo – era verdadeiramente pavorosa a situação!
Por seu lado, o general Haking, comandante do XI Corpo visita a Divisão Portuguesa no dia 6 de Abril e promete recompletar os efetivos, “declarando a todos que conhecia bem o estado da Divisão que pertencia ao seu Comando”.
No dia seguinte, 7 de Abril, a artilharia aliada desencadeia um largo bombardeamento “a fim de serem batidas todas as comunicações do inimigo, o que estava de harmonia com o desejo de todos, visto os boletins de informações virem acusando um desusado movimento nos arraiais adversos, chegando-se a observar a descarga de 40 ou mais camiões com munições. Preparava-se algum grande acontecimento”.
Mas ainda antes do dia fatal, nova surpresa estava reservada à tropa portuguesa! De facto, como o major António José Teixeira esclarece:
Foi grande a surpresa de todos, quando em 8 a 5ª Brigada recebeu ordem de rendição, devendo o seu comandante combinar, nessa noite, com o comandante duma Brigada da Divisão 55ª, os trabalhos da rendição para o dia seguinte.
A 5ª Brigada estava depauperadíssima, os seus efetivos eram de 104 oficiais e 2949 praças, faltando-lhe, portanto, 64 oficiais e 1543 praças, números muito afastados do efetivo.
Parecia que tudo se conjugava, mercê de uma série de circunstâncias que concentram responsabilidades políticas e militares, de comando e de planeamento, operacionais e pessoais, para que a Divisão Portuguesa tivesse que morrer nas linhas, independentemente da sua condição militar ou das suas capacidades de resistência!
No nosso relato ficou o desabafo do último comandante do BI 10:
Pela noite de 8 tinha-se pois recebido a informação de que Infantaria 10 seria rendida em 9, e é nesta confusão e com as malas preparadas para se sair do sector, que rebentam as primeiras granadas de 38 cm de calibre, a anunciar a grande ofensiva sobre o front português, a dar início à grande batalha do Lys!
Das memórias de Douglas Haig, comandante dos Exércitos britânicos, retiram-se algumas justificações para o desastre que se abateu sobre as tropas portuguesas, mas não ficam claras quaisquer responsabilidades sobre os erros que evidentemente conduziram à situação.
O comandante-chefe justifica assim a ofensiva alemã:  
A preparação do inimigo para uma ofensiva neste sector central tinha sido concluída há algum tempo. O admirável e extenso sistema ferroviário tornou possível, com grande rapidez, a concentração de tropas necessárias para um ataque. As minhas forças neste sector não poderiam ser grandemente reduzidas.
Em consequência destes vários fatores, a maior parte das divisões na linha de frente, e em particular a 40ª, 34ª, 25ª, 19ª e 9ª Divisões, as quais em 9 de Abril estavam na frente, entre o sector Português e o Canal Ypres-Comines, já tinham tomado parte na batalha do Sul. Deve considerar-se que, antes da batalha do norte se iniciar, quarenta e seis das minhas cinquenta e oito divisões, tinham estado empenhadas no sul.
No final de Março, no entanto, a parte norte da frente secou rapidamente sob a influência de uma Primavera muito quente, ficando em condições de sofrer um ataque mais cedo do que seria de esperar. Preparativos para apoiar a Divisão Portuguesa, que tinha estado continuamente em linha por um longo período e precisava descansar, foram feitos durante a primeira semana de Abril, e deveriam ter sido concluídos até à manhã do dia 10 de Abril. Entretanto, outras divisões, que tinham sido empenhadas na luta no Somme e que tinham sido retiradas para descansar e se reorganizarem, foram transferidas para a frente do Lys. (…)
A persistência do bom tempo fora da estação e a secagem rápida do vale do Lys permitiu ao inimigo antecipar o ataque à 2ª Divisão Portuguesa.
Na noite de 9 de Abril, um invulgar bombardeamento pesado e prolongado, também com gás, foi iniciado ao longo de praticamente toda a frente de Armantières a Lens, cerca das 4,0 horas, do dia 9 de Abril. 


Por seu lado, no seu relatório, o último comandante do BI 10 inicia deste modo a descrição da batalha:
A ofensiva de 9 de Abril, no velho campo de batalha de Messines teve lugar entre o canal de La Bassée e Bois Grenier, numa extensão aproximada de 18 quilómetros, sendo mais de 10,5 confiados à guarda dos nossos Lusos, entre Bond Street ao Norte e a Schetland ao Sul, ocupando o Batalhão de Infantaria 10 a frente compreendida entre a Schetland ao Sul e a trincheira Cokspur ao Norte, numa extensão de cerca de 2000 metros.
E quanto ao duelo principal que se travou no início da ofensiva, a desproporção não podia ser maior:
Calculava-se que as oito Divisões que se empenhavam na batalha deveriam ter a auxiliar-lhes a ação 1500 canhões. Nós tínhamos 76 peças de campanha e 16 obuses, com uma escassa artilharia pesada dos ingleses!
O major António José Teixeira descreve em seguida todo o dispositivo das unidades e postos da noite de 8 para 9 de Abril, mencionando o nome de todos os responsáveis, oficiais e sargentos, que se encontravam nas várias linhas e no comando. O Batalhão era comandado pelo major Guilherme Correia de Araújo.
Segue-se, ao longo de muitas páginas, a descrição da Batalha e da evolução da situação durante a noite e manhã do dia 9 de Abril, acabando com a descrição pormenorizada de todas as companhias e dos seus feitos, começando pela 3ª Companhia, colocada na direita do sector, em contacto lateral com a primeira unidade da 55ª Divisão inglesa, passando pela 1ª Companhia, à esquerda, pela 4ª Companhia, em apoio, e terminando na 2ª Companhia, em reserva.
Finalmente, o major António José Teixeira finaliza o seu relatório com uma homenagem a todos os que se bateram e sacrificaram nas condições que ficaram bem claras na sua memória escrita:
O discurso do general britânico Haking, sintetizado na frase para sempre histórica ‘A Divisão portuguesa tem de morrer na B line’ foi bem interpretada pelo heroico Batalhão de Infantaria 10, que, se não morreu totalmente nessa linha, é porque isso não estava escrito no livro do Destino, pois, a coragem e a abnegação, o arrojo e o génio, o heroísmo e o sacrifício dos seus valentes soldados revelaram-se em atos que ninguém pode descrever, mas que se traduzem na pálida e descolorida narração que aqui fica, a que devemos juntar a ideia duma superioridade numérica esmagadora, que chegava em sucessivas avalanches; o envolvimento perfeito e ainda a ação deprimente dum bombardeamento jamais presenciado pelas topas da Grande Guerra…
É assim que se luta e é assim que se morre, vivendo sempre para a Pátria e para a Imortalidade.

E nós, colocados na circunstância de lembrarmos os nossos soldados da Grande Guerra, que nos transmitiram uma lição de vida e de apego aos valores que nos unem, deixamos aqui uma profunda homenagem e declaramos que o seu sacrifício não pode ter sido em vão!
Terminada a batalha, outra tragédia se inicia para os militares portugueses. Naqueles dois dias foram feitos prisioneiros mais de 6500 militares portugueses, 270 oficiais e 6315 sargentos e praças, como rezam as estatísticas. O BI 10 teve 21 oficiais e mais de 300 sargentos e praças prisioneiros de guerra.
Como o major António José Teixeira também foi feito prisioneiro, o seu relato transmite-nos um profundo conhecimento das circunstâncias e dos trabalhos por que passaram os militares portugueses até ao fim da guerra, num texto denso e muito sentido. No final da guerra foram entregues pela Alemanha a Portugal 269 oficiais, 362 sargentos, 689 cabos e 5447 soldados, num total de 6767 militares. Faleceram nos campos alemães 5 oficiais, 13 sargentos e 215 cabos e soldados. Os oficiais portugueses acabaram por chegar ao campo de Breesen, mas as praças foram espalhadas por diversos campos, em muitos dos quais poucos apoios conseguiram ter, ou foram aproveitadas para trabalhos em vários lugares e mesmo próximo da frente. Foi nesta situação que vieram a saber da assinatura do armistício e da cláusula que obrigava a Alemanha a proceder, no prazo de 30 dias, à “evacuação de todos os seus prisioneiros de guerra”.
A alma de cada um vibrava intensamente de alegria, não só por ver alfim tombar o despótico poder kaizeriano, mas também por todos irem em breve contemplar o sol doirado da Liberdade que tanto ambicionavam, e ainda por se pensar que também em breve se pisaria o solo abençoado da Pátria.
E assim termina a história do BI 10 de Bragança elaborada pelo seu último comandante, major António José Teixeira, não sem que ele nos deixe como mensagem final alguns versos de Camões, findando:
Podeis vos embarcar, que tendes vento
E mar tranquilo, para a Pátria amada (Estância 143 do Canto X dos Lusíadas).
Como anexos, encontramos ainda os seguintes quadros, que completam o relatório apresentado:
·        Relações dos oficiais mortos
·        Relação das praças mortas
·        Relação de praças desaparecidas
·        Relação dos militares condecorados com a cruz de guerra
·        Relação de oficiais, sargentos e soldados louvados
·        Relação dos oficiais prisioneiros de 9 de Abril
·        Quadro dos oficiais que fizeram parte dos efetivos do BI 10 na Grande Guerra
·        Quadro dos sargentos que fizeram parte dos efetivos do BI 10 na Grande Guerra
·        Relação do pessoal (sargentos músicos) que fazia parte da banda de música que destacou com o Batalhão para a Flandres
·        Relação dos sargentos artífices que faziam parte do Batalhão.

Ao acompanharmos estas páginas de sofrimento, sacrifício, valentia e desastre, temos todos mais uma oportunidade de nos questionar, não apenas sobre a Grande Guerra em especial, mas naturalmente sobre todas as guerras (sobre as guerras que querem pôr fim a todas as guerras e sobre as guerras que previnem outras guerras); também sobre Portugal e sobre a Europa; ou sobre o Mundo e a mundialização.

Para que não seja em vão o conhecermos o cortejo de dramas que a ela estão inevitavelmente associados. Para que nunca deixemos de ter presente a interrogação decisiva e permanente, perante qualquer toque das trombetas de guerra.


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O BATALHÃO DE INFANTARIA 10 NA GRANDE GUERRA



A parte 4 do texto sobre a presença na Flandres do Batalhão de Infantaria 10 de Bragança, leva-nos desde Janeiro de 1918 até às vésperas do 9 de Abril, batalha em que participou nas linhas da frente.

Parte 4:


Desenho das várias fases da reparação
de uma trincheira incluído
no relatório do BI 10, desenho
do major António José Teixeira, AHM.
Entretanto, nos primeiros dias de Janeiro o comandante do Batalhão, major Correia Soares, entrou de licença e foi substituído pelo major Guilherme Correia de Araújo. Será este que recebe a ordem de as rendições se passarem a fazer de quatro em quatro dias e não de seis em seis como era habitual. A medida, que causava bastantes transtornos pela frequência de mudanças nas trincheiras, justificava-se por parecer médico, “atendendo ao período de invernia que atravessamos e consequentemente ao maior esgotamento que as baixas temperaturas produzem”. De facto, os “clínicos” atribuíam à permanência nas trincheiras “as doenças dos olhos que agora intensamente se manifestavam, causadas pelas reverberações dos campos nevados e pela atenção que a sentinela necessitava ter, de dia e de noite, sobre a terra alva que dia a dia, hora a hora se disputava”.
Como resultava sempre uma clara desvantagem para o atacante em qualquer manobra assente no movimento de tropas, as frentes de combate mantiveram-se quase estáticas ao longo de um grande período, uma vez que as defesas estavam organizadas nas trincheiras e no uso intenso de fogos de metralhadora, morteiros e artilharia. Quando as tropas portuguesas ocuparam o seu sector ainda este impasse continuava e por isso se planeavam, por vezes, operações de bombardeamentos mais intensos, por forma a aliviar a pressão que o inimigo exercia sobre as trincheiras com ações de bombardeamentos dispersos, mas persistentes. Foi o que aconteceu em 18 de Janeiro, na frente da 5ª Brigada, onde se incluía o Batalhão de Infantaria 10. Nesta situação recomendava-se às tropas que, depois do bombardeamento e prevendo uma resposta do inimigo, deveriam fazer o seguinte:
Tendo a experiência demonstrado que há toda a vantagem em que as tropas que guarnecem a 1ª linha saiam para a terra-de-ninguém e se abriguem nas crateras de morteiros, logo que o inimigo faça um bombardeamento intenso (não só porque deste modo ficam fora da zona batida, mas também porque mais facilmente repelirão o inimigo que porventura tente fazer um ataque em seguida ao bombardeamento), recomenda-se a todos os graduados que assim devem proceder, cumprindo-lhes explicar às praças as vantagens da adoção desta medida.
O autor do relatório que estamos seguindo não nos esclarece contudo, se tal medida chegou alguma vez a ser seguida!
O mês de Fevereiro de 1918 passa-se em rendições sucessivas, ora nas primeiras linhas, ora em apoio, ora em reserva, sendo que em nenhumas das situações as tropas tinham qualquer verdadeiro descanso. Quando chega o mês de Março, as atenções voltam-se para o Somme, onde vai desenrolar-se a grande ofensiva alemã, ação que “faz retirar da nossa retaguarda muita artilharia inglesa, que defendia estas paragens”.
As tropas portuguesas estão numa altura crucial. A atividade militar vai intensificar-se na frente ocidental, como consequência da decisão alemã de encontrar sem demora uma saída definitiva para o impasse das trincheiras. Mas é exatamente por esta altura que as tropas portuguesas, sem o apoio que seria normal por parte dos responsáveis, se encontram num período de terrível depauperação física e moral. Sigamos o relato:
É extrema a miséria física em que se encontram os nossos soldados; não há grandes nem pequenos descansos, não há licenças, nem reforços; morre-se e não se é rendido… De Portugal nada chega!
Entre os soldados lavra um intenso descontentamento. Esta vida na Village Line é mais martirizante que a das trincheiras. Dizia-se que isto era um repouso!...
Meses de trincheiras, sem descanso, sob o terrível e inclemente Inverno, e morrendo-se por conta-gotas!... (…)
As intoxicações sucedem-se. Os comandantes de Companhia mantêm as suas unidades, reduzidas dia a dia!... Os seus soldados parecem uma legião de proscritos, miseravelmente abandonados pela Pátria…
Eles ali estão pálidos, exaustos pela falta de descanso durante o dia e de tranquilidade durante a noite; os pulmões envenenados pelos gases, sem esperança de serem rendidos e sem apoio moral das instâncias superiores.
Raro é o dia em que não surge mais um com os pulmões corroídos pelos malditos gases!
Neste terrível mês de Março a situação era de tal forma preocupante, que o alferes Abel Estima, que comandava a 4ª Companhia, informava o comando do Batalhão do seguinte:
Após o bombardeamento de gás desta manhã, que durou seis horas consecutivas, em que todos mais ou menos apanhámos gás, a minha Companhia ficou reduzida ao seguinte (…): 1º pelotão, 15 soldados e um 1º sargento; 2º pelotão, 21 soldados e dois sargentos; 3º pelotão, 22 soldados e três sargentos. Destes, uma grande parte piora de tarde, e amanhã, naturalmente, não se aguentam.
Como hei de constituir as forças que hão de ficar?
E se amanhã, como é provável, tudo tiver piorado?
Quem são os oficiais que ficam?
O comando de Companhia retira?
Aguardo instruções de V.Exª.
Estas as terríveis perguntas que os comandos subordinados faziam, e a que os comandos superiores não sabiam responder. Por isso, o major António José Teixeira, que escreve este relatório depois da guerra, esclarece: “Estava escrito que jamais chegaria o decantado roulement, e que o C.E.P. era coisa para se gastar!...”.
Entretanto, a situação conheceu um novo rumo.
Gomes da Costa, que assumira o comando da 2ª Divisão em 20 de Março, visita as unidades dos vários sectores e refere o aumento de atividade do inimigo, mostrando “claramente a possibilidade de uma ofensiva, atendendo aos movimentos observados na zona de retaguarda do inimigo, à atividade da aeroplanagem e aos repetidos reconhecimentos de patrulhas”.
O comandante da 2ª Divisão não deixa de acentuar o estado das tropas e a necessidade urgente da sua completa substituição. Lembra que a Divisão Portuguesa em primeira linha tinha conhecido, no período de Dezembro a Abril, três Divisões diferentes à direita e quatro à sua esquerda, rendidas sucessivamente. E acrescentava:
Com um cansaço impossível de descrever; com o moral esmagado pelo espírito de sacrifício, verdadeiramente aniquilado pela tristeza que causava o saber-se que oficiais que tenham partido de licença haviam ficado anichados na Guarda Republicana, nos corpos pretorianos ou nas comissões de serviço!...
Mas que condições!
Embora a 5ª Brigada fosse a que menos dias tinha de primeiras linhas (cerca de três meses), uma vez que fora a última a assumir a responsabilidade de um sector, a verdade é que esse tempo coincidira com o Inverno rigoroso, o que depauperara os homens até um extremo limite.
Sabendo-se das intenções do inimigo, que estaria a preparar um ataque de grandes dimensões, o comando inglês fez algumas alterações significativas. Em primeiro lugar, manteve na frente apenas a 2ª Divisão, que passou ao comando do XI Corpo inglês, general Haking (1), deixando o C.E.P. de ter responsabilidade operacional a partir de 6 de Abril; em segundo lugar planeou a rendição da 2ª Divisão, primeiramente para o próprio dia 6 de Abril e depois para os dias 9 a 11 de Abril. Entretanto, a 2ª Divisão ocupou as primeiras linhas, com as 5ª, 6ª e 4ª Brigadas respetivamente nos sectores de Ferme du Bois, Neuve Chapelle e Fauquissart. O BI 10, pertencendo à 5ª Brigada, ocupou o subsector mais à direita de Ferme du Bois, ficando em contacto com o Batalhão mais à esquerda da 55ª Divisão britânica.
Prevendo-se a aproximação de uma situação muito difícil, de que já ninguém tinha dúvidas, o general Costa Gomes faz ainda um último alerta:
O C.E.P. tem tido a seu cargo um sector, para o qual dispunha de seis Brigadas, sabendo todos quanto, devido à escassez de efetivos, à falta de quadros e ainda, ultimamente, devido a uma certa fadiga e depressão moral, esta defesa se estava tornando precária.
Acabando de receber ordem para guarnecer o mesmo sector, apenas com quatro Brigadas, de efetivos depauperados, e com falta de 139 oficiais e de 5792 praças, acato a ordem recebida, mas não posso deixar de declinar toda a responsabilidade do que venha a acontecer.
O major António José Teixeira dá-nos conta da situação que se vivia:
A desmoralização que havia atingido outras unidades tinha crescido pavorosamente. Infantaria 7 havia-se revoltado, recusando-se firmemente a entrar nas linhas, justamente no dia 4 de Abril.
Foi esta revolta que provocou a retirada da frente da 2ª Brigada e obrigou toda a 5ª BI a fazer uma rendição precipitada e sem um metódico reconhecimento do novo sector que lhe destinavam.
Esperava-se, e era lógico, que o Batalhão do 10 fosse transportado em camiões até L’Epinett, dada a urgência, porque tinha de realizar a ocupação, e ainda mais lógico pareceu o facto, quando se soube que as forças que ocupavam o sector de Ferme du Bois retiravam em camiões.
Mas Infantaria 10 estava condenada a fazer (a pé) este terrível percurso, através dessas estradas lamacentas, encharcadas, e por uma noite escuríssima (…)
Houve grande descontentamento entre as praças. Houve mesmo ligeiros episódios que esboçaram evidentemente, talvez pela primeira vez, má vontade com que executavam uma ordem dimanada dos seus superiores. Mas a energia dos oficiais, a decidida boa vontade e o prestígio de muitos, (…) fizeram com que nesta unidade não se acentuasse o mais pequeno gesto de repulsa por uma ordem que a todos deixava visivelmente contrariados, por lhes parecer pesada e pelas circunstâncias de que se estava rodeando o moral de todos.
E remata assim o relator:
Depois duma marcha fatigante e penosa, deu entrada o Batalhão nas linhas, às cinco horas, podendo ouvir o capitão Luís Emílio Ramires (2) da boca de um seu camarada que ia ser rendido, uma frase que denotava a disciplina, a ordem e o espírito de sacrifício do soldado do Nordeste de Trás-os-Montes:
- Muito bons soldados têm vocês!...
Nada aliviava o sofrimento dos soldados portugueses. Todas as condições pareciam conjugar-se para tornar cada vez mais difícil a sua participação neste longínquo e excessivo esforço de conter os planos alemães.

……
1 Richard Haking (1862-1945), general britânico, comandante do XI Corpo de Exército na Grande Guerra. Em 1914 comandou a 5ª Brigada de Infantaria na Batalha de Mons, e a 1ª Divisão na Batalha de Aubers Ridge ou Batalha de Fromelles. A partir de Setembro de 1915 passou a comandar o XI Corpo, comando que manteve até ao final da Guerra. Nunca ficou completamente esclarecido o plano de rendição da 2ª Divisão Portuguesa, exatamente para 9 de Abril, dia da ofensiva alemã (operação Georgette).
2 Luís Emílio Ramires (1882-1961), coronel, nasceu no Porto. Fez parte do C.E.P., embarcando em Lisboa a 7 de Agosto de 1917. Tomou parte na Batalha de La Lys, sendo feito prisioneiro. Regressou a Portugal em Fevereiro de 1919. Em 1932 comandou o Batalhão de Metralhadoras 2.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O BATALHÃO DE INFANTARIA 10 NA GRANDE GUERRA



Esta 3ª parte do texto sobre a presença do Batalhão de Infantaria 10 de Bragança, na Flandres, durante a Grande Guerra, estende-se das primeiras entradas em linha até ao Natal de 1917, sempre acompanhando o relatório feito mais tarde pelo seu comandante, major António José Teixeira.


Parte 3:
 
Carta do Sector de Boutillerie,
o primeiro em que o BI 10 fez estágio
junto de tropas inglesas,
desenho do major António José Teixeira,
AHM.
Em 30 de Setembro, os oficiais reconhecem o subsector de La Boutillerie, uma área difícil, não contínua, com frequentes inundações, sem trincheiras de comunicação, onde as tropas fazem mais uma pequena estadia de aprendizagem.
Mais tarde, em 20 de Outubro, e após várias experiências em diferentes subsectores, participando em todos os trabalhos inerentes à permanência em linha, é feito o reconhecimento do subsector de La Chapelle, onde o Batalhão vai passar por nova experiência, a partir de 22 de Outubro. Foi nesta zona, que a 25 de Outubro o Batalhão teve as primeiras baixas em combate, na localidade de Erquinghem:
Cerca das 14h30, os segundos sargentos Firmino Herculano Moredo e Avelino António Martins são encontrados pelo comandante da sua Companhia que lhes pergunta se os soldados já estarão preparados para a revista de armas, visto terem de dar entrada ao crepúsculo da tarde desse dia no subsector de Bois Grenier. Os sargentos vão verificar o estado do armamento, mas, quando se dirigem aos esburacados prédios que serviam de alojamento aos nossos, viram cair próximo duma posição de baterias inglesas projéteis de grosso calibre, a cerca de 200 metros dos locais de estacionamento. Não obstante, continuam a marcha. Mas subitamente, uma segunda granada sibila no ar, dando-lhes apenas tempo para se deitarem e indo explodir no centro de alojamento sobre um carro de companhia, onde se encontravam alguns soldados, escrevendo a suas famílias.
O soldado da 1ª Companhia, António Maria Rodrigues, de Campo de Víboras sofreu morte instantânea e bem assim os da 2ª, António Maria Preto, de Caçarelhos e António Augusto Pires, também de Campo de Víboras. (…)
Eis o primeiro dia trágico do Batalhão, no serviço de trincheiras.
Aproximava-se a hora de a unidade avançar para a frente que lhe estava destinada e assumir as responsabilidades de comando, depois de várias e sucessivas sobreposições com unidades inglesas nas primeiras linhas, à semelhança do que outras unidades portuguesas já tinham experimentado. O Batalhão de Infantaria 10 avançará no dia 3 de Novembro para um subsector na frente da Brigada 113, inglesa, para seis dias de responsabilidade operacional.
Diz-nos o major António José Teixeira:
Este subsector constava também de três linhas de defesa, e os seus postos tinham todos nomes de mulheres: Ada, Alice, Catarina, etc. A sua principal linha de resistência estava na 3ª linha. Era atravessado pela linha férrea para Armentiers, agora toda desmantelada ou totalmente destruída. Era muito batida toda a frente, e, tornando-se impossível manter a 1ª linha contínua, recorria-se, como noutros sectores, ao sistema de postos isolados, sendo bem batidos todos os intervalos existentes por fogos de metralhadora, situadas em pontos previamente estudados.
Os soldados portugueses tomavam assim contacto mais próximo com a presença nas primeiras linhas, e com todos os trabalhos que lhe eram inerentes. Muitos outros camaradas seus tinham sofrido as mesmas ou piores agruras, ali mesmo naquelas linhas, nos três anos anteriores, sem que se vislumbrasse como se sairia daquele imenso impasse.
A impossibilidade de usar o movimento como elemento essencial do combate, completamente dominado pelo fogo e pela necessidade de proteção, acabou por obrigar as tropas da imensa linha da frente a procurarem os abrigos de um sistema de trincheiras que se manteve quase inalterado ao longo dos primeiros anos, até que outras armas vieram introduzir no campo de batalha a possibilidade de retomar o combate pelo movimento. Mas tal só viria a tornar-se viável com o carro de combate, arma decisiva para alcançar a vitória. Contudo, as condições necessárias, que estavam para além dos dramas que se viviam nas trincheiras, só surgiriam em 1918.
Sigamos o relato do nosso autor:
Em 6 de Novembro, as Divisões portuguesas, até essa data subordinadas ao XI Corpo inglês, ficam sob as ordens do Corpo Português, assumindo a 1ª Divisão, do comando do glorioso general Gomes da Costa, a defesa de um sector que compreendia Ferme-du-Bois, Neuve Chapelle e Fauquissart, avançando a 2ª Divisão com o seu quartel-general para La Gorgue.
Em 20, o Batalhão do 10, que tinha feito o seu tirocínio sob as ordens do comandante da 6ª BI (Brigada de Infantaria), fica novamente subordinada à 5ª BI, passando esta a ser constituída pelos batalhões de Infantaria 4, 10, 13 e 17.
Mas só a 5 de Dezembro a 5ª Brigada de Infantaria, sob o comando do coronel António Maria Baptista (1), toma conta do sector de Fleurbaix, “que havia sido adstrito à defesa do Corpo Português, alargando-se a nossa frente com mais essas trincheiras, e ficando a 1ª Divisão com Ferme-du-Bois e Neuve Chapelle, e a 2ª com Fauquissart e Fleurbaix”.
A partir desta altura todos os batalhões, como as companhias dentro dos batalhões, faziam rotações de posição, por forma a não permaneceram mais de seis dias em primeira linha. A vida nas linhas era difícil, os soldados portugueses, mesmo os transmontanos, não estavam habituados ao frio intenso do norte da Europa, o sector português situava-se numa zona de inundação frequente, o que motivava muitas doenças, esgotamento físico e extremo cansaço. Mas o pior ainda estava para vir…
O Natal de 1917, o quarto passado nas trincheiras, deixa nos soldados portugueses uma profunda marca, que nunca seria esquecida. Diz-nos o cronista do Batalhão de Infantaria 10:
Chegou o Natal de 1917!... Dia tétrico esse, passado sob a inclemência do frio, com uma noite escura como breu.
A guerra parecia mais feroz.
Havia dois anos que os ingleses tinham fraternizado com o inimigo, nesse dia de Paz Universal (…)
Uma ordem do comando britânico, transmitida pelos comandos das Brigadas, fez enviar aos alemães um cartão de boas festas…
Partiram toneladas de granadas de todos os calibres, rajadas de metralhadoras e ainda granadas de espingarda e morteiros, às 17 horas e vinte minutos, produzindo o seu ribombar um formidável abalo em todas as edificações e um ruído ensurdecedor!
Os canhões abrem as suas fauces deixando-nos ouvir esses sons anunciadores da ruína e da destruição!
Enterrados na lama, fatigados, os nossos serranos viam passar, ébria de sangue e ódio, essa avalanche de metralha, contemplando, ao mesmo tempo, estupefactos, os fantásticos clarões dessas dezenas de bocas de fogo, que pareciam entoar sarcástica e demoniacamente, uma nova canção do Natal, sinistra e cheia de imprecações.
Horrível Natal! Todos, neste dia, cismaram na família, no seu país…
O jantar é triste… nem luzes, nem acepipes, a recordar vagamente a lenda do Natal!...
A neve cai nos campos e nas nossas almas. A bruma da noite envolve-nos, e as sentinelas embuçam-se, transidas, ao longo da linha que, serpenteando, segue pela nossa frente (…)
Era o Natal nas trincheiras. Triste Natal este de 1917 para os que ouviam o estrondear dos morteiros, os estalidos secos dos snipers, os estilhaços enervantes da metralha e o chac-chac estrídulo da Maxim!...
Os batalhões de apoio e reserva formavam pelos campos, à espera da terrível resposta…
Nos quartéis-generais de Brigada, a todo o momento, se esperava pelo ‘mercie’…
O inimigo, porém, não respondeu à nossa artilharia, mas arremessou sobre a 1ª linha algumas dezenas de morteiros, mantendo as guarnições numa contínua agitação.
Na frente de combate havia, para além dos duelos de fogos, dos atiradores especiais que a todo o momento podiam fazer vítimas, dos sofrimentos contínuos, um pavor terrível que se prendia com a utilização de gases de combate. Por isso, e também porque “o serviço de gás deixava bastante a desejar”, o comando do Batalhão mandou publicar, ainda antes do final do ano, rigorosas instruções “necessárias para o serviço de defesa contra gás”.
No seu conjunto, as disposições constituem um manual extremamente confuso e complexo, que sempre seria difícil de interpretar e executar. Foi muito frequente o uso de gases de combate na frente portuguesa (granadas com este material acompanhavam os bombardeamentos o que obrigava ao uso das respetivas máscaras), sendo muitas as vítimas entre os militares portugueses, com terríveis consequências. O manual, com 20 regras, facilita, apesar de tudo, a compreensão do funcionamento do serviço de gás, as preocupações, os procedimentos, o uso dos equipamentos, o alarme, o material de gás distribuído e as respetivas responsabilidades, a requisição de equipamentos e matérias químicas, a evacuação de atingidos, etc.
Depois de abordar um dos serviços fundamentais para o bom funcionamento do apoio às tropas da frente, o serviço de saúde, com todo o detalhe que a questão merecia, o relatório que estamos seguindo faz pormenorizadas análises de outras questões pertinentes, como o reabastecimento de víveres e água, a reparação das trincheiras e abrigos, o reabastecimento de munições, a ventilação de casernas, barracas e outros edifícios, o estabelecimento de defesas de arame farpado, a entrega de materiais sempre que havia rendições, as instruções sobre os caminhos de emergência, as instruções sobre drenos, a ordem em caso de S.O.S., o apoio da artilharia, etc.
  
……
[1] António Maria Baptista (1863-1920), coronel, nasceu em Beja. Militar e político, distinguiu-se nas campanhas coloniais do final do século XIX. Fez parte do C.E.P., onde comandou a 5ª Brigada de Infantaria, tomando parte na Batalha de La Lys. Depois de 1910 aderiu ao Partido Democrático, tendo sido ministro da Guerra em 1919 e depois chefe do Executivo em 1920, tendo falecido neste ano, durante um conselho de ministros.


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O BATALHÃO DE INFANTARIA 10 NA GRANDE GUERRA


Esta parte do texto sobre o RI 10 na Grande Guerra respeita à sua viagem desde Lisboa até às linhas da frente, na Flandres.


Parte 2:

Sigamos pois o Bohemien, que já vai no alto mar.
Na Biscaia temos temporal. O rude serrano, que nunca havia sentido o desusado baloiço produzido pela borrasca, que não sabia o que era um mar de procela, assusta-se, mas os seus oficiais estavam ali para lhes gritar, como os capitães da maruja que partia às descobertas: não há perigo, é o mar que treme de nós!
Finalmente, a 26 de Abril, a viagem termina em Brest e às 18 horas já o BI 10 está na gare a fim de partir de comboio para a viagem que os seus camaradas antes chegados e outros que virão a seguir farão através do Norte de França em direção à Flandres, onde uma pequena parcela de alguns quilómetros da longa frente (mais de 700 quilómetros, entre o mar e a fronteira suíça) estava destinada aos portugueses.
A descrição do major António José Teixeira desta viagem através dos campos da Bretanha e Normandia está repleta de lembranças e notas históricas sobre cada região atravessada nessa primeira viagem, ao longo de mais de 700 quilómetros de Brest a Saint Omer, nas proximidades de Calais. Os soldados portugueses olham, pasmados, as paisagens e as cidades que aparecem e desaparecem do seu horizonte, merecendo menção Rennes, Mayenne, Alençon, Evreux, Rouen, Amiens, Abbeville, Étaples, Boulogne-sur-mer, Calais e Saint-Omer. A partir daqui a coluna militar segue a pé, passando por Wizernes e chegando aos seus destinos no dia 28 de Abril, em Becourt, onde monta o primeiro acantonamento.
Só a 28 de Junho, dois meses depois, o Batalhão segue para Ecques, aproximando-se da frente. Neste período, assim como nos dois meses seguintes, até ao início de Setembro, os homens recebem instrução em várias escolas (tiro, armamento, gases de combate, esgrima, trincheiras, metralhadoras, patrulhas, observação, saúde, comunicações, etc.). O dia 28 de Junho fica também tristemente assinalado pela ocorrência das primeiras duas mortes, por acidente, de soldados do Batalhão (1).
Soa, enfim, a hora de o Batalhão avançar para a frente, e em 11 de Setembro deslocam-se a 1ª e 2ª Companhia para Essars, a 3ª e 4ª, e bem assim o E.M. e Menor do Batalhão, para Le Touret. (…) a viagem fez-se em camiões guiados por soldados ingleses e pela estrada de Bethune.
Em 14, depois de alguns reconhecimentos feitos pelos oficiais, o Batalhão ocupou, sem responsabilidades de comando, os subsectores de Festubert e Givanchi, no sector de La Bassée.
Os ingleses receberam o português em festa, e a boa vontade dos nossos em bem cumprir e o desejo de aprender admirava notavelmente o oficial inglês, em especial os comandos superiores, de cuja boca se ouvia repetidas vezes ‘que o soldado português era excelente’. Ali iniciaram a aprendizagem nos serviços de patrulha, ronda, snipers, observadores, reparadores de trincheiras, etc. etc., adestrando-se em todos os serviços, com inegável perícia, até ao dia 17 de Setembro de 1917.
Logo a 23 de Setembro o Batalhão parte para Paradis-Nort e depois para Sailly-sur-la Lys. O autor do nosso relato vai dando conta das paisagens, das mudanças, do estado das culturas, mas também do movimento de colunas militares e dos sentimentos que invadem os soldados nesta marcha.
Ao chegar a Sailly, verifica que “os aeroplanos no seu rom-rom monótono, na sua exploração quotidiana, dirigem-se para a frente numa correria vertiginosa, ora adotando a formação em cunha ou escalão, ora o dispositivo em losango ou xadrez”.
Mais adiante, o espetáculo aéreo, que se vai tornando importante à medida que a guerra prossegue, impressiona todos os que nunca poderiam imaginar os progressos desta nova dimensão do teatro de operações:
Lá surge no horizonte uma esquadrilha inimiga, voando a bastante altura… as baterias antiaéreas fazem-lhe um tiro de barragem intenso e perseguem-na… distrai-nos o rebentamento de dezenas de granadas ao deixarem na atmosfera os seus novelos de fumo branco, que se evolam com as nossas mil conjeturas a propósito do aspeto interessante que a guerra a cada momento nos apresenta!
Tudo impressiona os soldados transmontanos, transplantados da sua pacata terra natal para este frenesim de matança, que contemplam espantados. Não podem nesta hora refletir sobre as razões que os levaram para tão longe, nem estão em condições de julgar o que motivou tão colossal concentração bélica. Sabem apenas que estão prestes a tomar parte nesta imensa batalha, onde terão em risco permanente a sua vida.
O relato dá-nos ideia do quadro que se desenrola à frente de todo o Batalhão:
Intermináveis comboios de camiões fazem encostar, à direita, os nossos soldados que vão marchando aprumados e altivos… agora, passam ajoujados de tropas, para logo a seguir surgirem carregados de víveres ou material!
As auto-ambulâncias também não cessam no seu vaivém, na sua missão dolorosa de conduzir feridos dos postos de socorros para os hospitais…
A artilharia entretanto troveja, ali bem perto de nós… as granadas, sibilando duma forma enervante cortam os ares e… lá vão! Duelo terrível, formidável o que se ouve!... Monstros de ferro partem à procura de mais algumas vítimas.
É a grande carnificina!
O inimigo riposta e o interminável duelo continua…


……


[1] Eduardo Alves, de Lamas de Orelhão e Francisco Augusto de Sobreiró, Vinhais.

domingo, 30 de outubro de 2016

O BATALHÃO DE INFANTARIA 10 NA GRANDE GUERRA


Este texto foi publicado na Revista CEPIHS (Centro de Estudos e Promoção da Investigação Histórica e Social Trás-os-Montes e Alto Douro), nº 4, Moncorvo, 2014, pp. 67-92.
Para publicação neste blogue e para melhor apresentação vai ser dividido em cinco partes que publicarei separadamente.

Capa do relatório sobre o BI 10
existente no AHM
 Parte 1:

Nos primeiros dias de Abril de 1917 foi recebida pelo Regimento de Infantaria 10 de Bragança, a ordem de mobilização de um Batalhão.
A 19, estava o Batalhão pronto para partir. “Grande foi a atividade desenvolvida nestes dias; mal se dormia com trabalhos que era necessário ultimar e que não podiam ser adiados”.
O comandante interino do Regimento, major Carlos António Leitão Bandeira (1), mandou publicar na Ordem de Serviço desse dia o seguinte despacho dirigido aos militares que partiam:
Neste momento solene que, em cumprimento do vosso dever ides partir para França, lutar pela defesa do Direito e da Liberdade, crede, soldados, vosso comandante até hoje, é com bastante pesar que deixo o vosso comando, certo de que em breve regressareis à vossa terra, ao seio das vossas famílias, com a satisfação do dever cumprido e depois de terdes mostrado ao mundo inteiro o quanto valem os soldados de Portugal. E é neste momento de comoção que, usando da competência que me confere o artigo 134º do Regulamento Disciplinar, vos louvo a todos pelo espírito de disciplina manifestado, correção e compostura mantida durante o período de concentração de que toda a cidade foi testemunha, e louvo em especial os senhores capitães Guilherme Correia de Araújo (2) comandante interino do 1º Batalhão, Francisco dos Inocentes, tesoureiro do conselho administrativo, António José Teixeira (3) e Augusto Adriano Pires (4), comandantes de companhia, alferes José Manuel Chiote (5), Norberto Amâncio Alves (6), ajudante interino do Batalhão, 1º sargento Tavares, que desempenhou o cargo de oficial de tiro e armamento, pela leal e ativa cooperação prestada ao Comando em todos os trabalhos respeitantes a mobilização, inteligência e cumprimento do dever que manifestaram no desempenho dos serviços a seu cargo.
No dia seguinte, 20 de Abril de 1917, o Batalhão de Infantaria 10 deixou Bragança, embarcando em dois comboios – um pelas seis horas da manhã, com as 1ª e 4ª Companhias e outro ao fim da tarde, com as 2ª e 3ª Companhias.
O efetivo do Batalhão que, depois de longo percurso e sob o comando do capitão mais antigo, comandante da 1ª Companhia, Carlos Augusto Vergueiro (7), chegava a Lisboa em 22, cerca da uma hora e que devia ser embarcado no vapor D (Bohemien) era constituído por 30 oficiais, 61 sargentos e 1138 cabos e soldados, num total de 1229 homens.
Foi este o pessoal que começou a embarcar às 3 horas e 45 minutos, acabando às 7 horas, com a melhor ordem e disciplina nesse dia 22 de Abril de 1917.
Nestes primeiros apontamentos sobre a presença do Batalhão de Infantaria 10 de Bragança na Flandres, como unidade integrante do Corpo Expedicionário Português (C.E.P.) temos seguido o relatório que o seu último comandante, major António José Teixeira, escreveu mais tarde, por imposição de uma determinação inserida na Ordem do Exército nº 4 de 19 de Novembro de 1920 e hoje depositado no Arquivo Histórico Militar (8).
No prefácio do longo texto de 244 páginas acompanhadas por croquis e desenhos sempre que necessário, o autor, como muitas vezes fará, exprime os seus sentimentos, tanto os que o invadem no momento da escrita, como aqueles que o acompanharam na hora a hora desta longa, atribulada e trágica estadia em terras de França.
Cumprindo o seu dever ao relatar os factos ocorridos com o seu Batalhão, o autor reflete:
Fica-me também a consolação de concorrer para ser levantado um monumento perdurável a quantos filhos do Distrito de Bragança deram os seus melhores e maiores esforços ao triunfo da Causa Mundial e à Glória da Terra Portuguesa.
Vai nele uma parcela da minha alma de transmontano e de soldado português, que prestou o mais humilde concurso aos seus irmãos em armas, acompanhando-os sempre nas venturas e nas desditas, chorando as mesmas lágrimas de saudade e acalentando as mesmas esperanças de vitória final.
E logo a seguir:
É uma crónica da ação de Infantaria 10 na Grande Guerra documentada o melhor possível, para servir de material a alguém que, mais tarde e com a competência exigida para trabalhos desta ordem, faça a história do movimento que abalou o mundo inteiro durante anos seguidos de infinita amargura.
Colocado pois, quase cem anos depois, perante o desafio deste meu camarada de armas, só poderei deixar-lhe não apenas uma palavra de tranquila compreensão pelo sacrifício que lhes foi exigido, mas também a certeza de termos retirado lições do exemplo que nos deram. Sem por isso deixarmos de escrutinar responsabilidades, comportamentos e obrigações de todos os envolvidos.
A ação de Infantaria 10, como a ação de outras unidades portuguesas e de centenas de unidades militares de todo o mundo, está hoje presente no labor de inúmeros historiadores que tentam compreender e explicar as razões, as formas e os efeitos de um tão longo e despropositado sacrifício exigido a toda uma geração de jovens, cujos cadáveres ficaram espalhados pelos intermináveis campos europeus, como símbolo de poderes incapazes de governarem pelo povo e para o povo. Os cerca de nove milhões de militares sacrificados, em que se incluem os 53 mortos e os 41 desaparecidos do BI 10, não podem jamais deixar-nos indiferentes, por mais que a história tenda a ser esquecida!
Este apontamento que aqui deixo é uma pequena homenagem aos soldados transmontanos, sobretudo da terra-fria, que outros foram mobilizados por outras unidades, tanto para a Flandres como para África, como reconhecimento do seu sacrifício e memória de um tempo de angústia e “infinita amargura”.

……
(1) Carlos António Leitão Bandeira (1872-1962), coronel, nasceu no concelho de Bragança. Esteve em Angola a partir de 1906, onde foi capitão-mor do Cuango. Comandou o Regimento de Infantaria 10, em 1917. Aderiu à revolta monárquica em 1919, vindo a ser preso na Relação do Porto.
(2) Guilherme Correia de Araújo (1880-1943), coronel, nasceu em Lamego. Fez parte do C.E.P. embarcando em Lisboa no dia 22 de Abril de 1917. Tomou parte na Batalha de La Lys, regressando a Portugal em Maio de 1919. Comandou depois o 3º Batalhão do Regimento de Infantaria 10.
(3) António José Teixeira (1879-1963), coronel, nasceu em Bragança. Durante a Grande Guerra esteve em Angola até final do ano de 1915 e participou no C.E.P., embarcando para França em Abril de 1917, como oficial do Batalhão de Infantaria 10, que acabou por comandar. Feito prisioneiro de guerra, regressou a Portugal em Dezembro de 1918 e desembarcou em Lisboa no dia 3 de Janeiro de 1919. Tomou parte nas operações contra os monárquicos em Trás-os-Montes. Atingiu o posto de coronel em 1936.
(4) Augusto Adriano Pires (1877-1924), capitão, nasceu em Bragança. Fez a maior parte da sua vida militar em Angola, onde permaneceu, com raros intervalos, desde 1906 a 1916. Colocado no Regimento de Infantaria 10 em 1916, veio a fazer parte do C.E.P., embarcando em Lisboa a 22 de Abril de 1917. Ferido e prisioneiro na Batalha de La Lys, acabou por regressar a Portugal em Maio de 1919. Voltou a Angola em 1919, onde veio a falecer.
(5) José Manuel Chiote (1873-1939) nasceu em Freixo de Espada à Cinta. Fez parte do C.E.P., embarcando em Lisboa em 22 de Abril de 1917. Tomou parte da Batalha de La Lys e foi feito prisioneiro, tendo regressado a Portugal em Fevereiro de 1919. Colocado no Regimento de Infantaria 30, passou ao Regimento de Infantaria 10 em 1920.
(6) Norberto Amâncio Alves (1884-1944) nasceu em Figueira de Castelo Rodrigo. Esteve em Angola na campanha de 1914-1915, onde participou no combate de Naulila. Fez parte do C.E.P., embarcando em Lisboa em 22 de Abril de 1917. Tomou parte na Batalha de La Lys, ficando intoxicado com gases. Regressou a Portugal em Agosto de 1918. Tomou parte nas operações contra os monárquicos em 1919. Voltou a Angola em 1923-1924.
(7) Carlos Augusto Vergueiro (1865-1936), coronel, nasceu em Bragança. Tomou parte na revolta do 31 de Janeiro de 1891. Esteve em Angola com a força expedicionária, de 1914 a 1915. Fez parte do C.E.P., embarcando em Lisboa em 22 de Abril de 1917. Regressou de França em Abril de 1918. Combateu contra os revoltosos monárquicos no sul do distrito de Bragança em Fevereiro de 1919. Comandou o 6º Grupo de Metralhadoras em 1919. 
(8) AHM/01/35/Cx1343: António José Teixeira, Infantaria 10 na Flandres. Assinado em 30 de Agosto de 1922. Sempre que neste texto não for mencionada outra fonte, as transcrições referem-se a este relato.