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sexta-feira, 24 de março de 2017

TEIXEIRA GOMES, UM DIPLOMATA EM LONDRES



Logo que terminei o curso de História na Faculdade de Letras de Lisboa, em 1980, fui convidado por alguns professores para participar em projetos de investigação que nessa altura tinham entre mãos. Passou-se isso com o Prof. João Medina, com quem participei na História Contemporânea de Portugal, que veio a ser publicada em 1985, e aconteceu também com o Prof. Vítor Vladimiro Ferreira, com quem fiz uma longa investigação no Arquivo Histórico Diplomático sobre a correspondência oficial da Legação de Portugal em Londres, entre 1900 e o início da Grande Guerra. Fiquei com a parte respeitante ao ministro (embaixador) Manuel Teixeira Gomes, correspondente ao período 1911-1914.

O trabalho foi publicado logo em 1982 na Análise Social, mas fica aqui a minha parte, com outro título.

Análise Social, ver aqui:




É nosso objectivo procurar, no meio da infindável lista de razões que precipitaram o penoso caminho da experiência republicana, um escolho que se associou a elas, feito de pequenos nadas escondidos na correspondência oficial de Teixeira Gomes, ao longo dos anos de 1911 a 1914.

As monarquias europeias, e em especial a inglesa, se suportavam mal a sua congénere portuguesa, não aceitaram de bom grado a solução republicana.

A oposição ao novo regime procurou organizar-se onde o terreno lhe era mais propício e o contra-ataque pudesse ser planeado, organizado e executado.

Ficaram então em Espanha os executantes e refugiaram-se em Inglaterra os marechais. A conspiração começou de imediato e manifestou-se em Inglaterra de três formas: acolhimento da família real e facilidades concedidas à movimentação dos seus apoiantes; campanhas sucessivas de imprensa sobre aspectos globais ou factos ocasionais ocorridos em Portugal, por forma a levar a opinião pública a manifestar-se contra o novo regime; atitudes do Governo Inglês, adiando o reconhecimento da República, por forma a manter as mãos livres, exigidas pelos apoios a uma viragem da situação.

Aspeto da inauguração da estátua da Rainha Vitória,
em Londres, em 1911, ano em que Teixeira Gomes iniciou
funções como Ministro de Portugal em Londres.

A análise da correspondência de Teixeira Gomes faz ressaltar as questões fulcrais que se colocaram à República no âmbito das suas relações externas. O plano que Teixeira Gomes acaba por delinear para a sua acção diplomática centra-se em torno de meia dúzia de problemas vitais, quase todos inter-relacionados.

Não parece, assim, de surpreender que a primeira grave questão que se coloca à Legação Portuguesa em Londres seja efectivamente a de conseguir opor-se aos planos da conspiração que fazia de Inglaterra uma praça-forte.

A acção conspirativa desenvolvia-se a vários níveis - junto das altas esferas influentes (família real, aristocracia, almirantado), onde os conspiradores procuravam apoios políticos; junto da imprensa, onde era notória a intenção de manter latente a questão portuguesa, influenciar a opinião pública contra a República e agitar certo tipo de problemas sensíveis ao espírito inglês e baseados em atitudes (com um fundo de verdade ou não) dos novos dirigentes e das novas instituições portuguesas; ainda junto de outros emigrados portugueses, no sentido da sua mobilização para a causa, da recolha de fundos e da preparação de meios militares de intervenção: equipamento de navios e preparação de incursões.

Teixeira Gomes procurou guiar-se por um plano razoável e possível, sabendo que o essencial da questão portuguesa não era resolúvel tomando somente em consideração os meandros das relações externas.

A leitura da sua correspondência oficial transmite a impressão de que Teixeira Gomes possuía uma central de informações, tão precisas e oportunas eram as advertências de que se fazia porta-voz, quer junto do Governo Português, quer junto do Foreign Office.

Floristas de Londres, em 1911.

Já depois de ter feito abortar várias tentativas de compra de navios de guerra por parte dos conspiradores, normalmente com recurso ao Foreign Office e levando na mão o nome do navio, o porto em que se encontrava e, por vezes, o conhecimento da casa encarregada da transacção, Teixeira Gomes, recebendo, em 4 de Setembro de 1911, informações de Lisboa que asseguravam uma iminente entrada em Portugal de conspiradores vindos da Galiza, noticia com surpreendente pormenor, em 13 do mesmo mês, que os comandantes da conspiração estão deveras descontentes com a pouca actividade de Paiva Couceiro.

Ainda passados dois dias, a 15 de Setembro, Teixeira Gomes, através de um seu agente, informa o dia da incursão - 25 de Setembro -, assim como os locais de concentração em território espanhol: Orense, Tui, Santiago e Salamanca.

Adiada esta, Teixeira Gomes pôde ainda alertar, em 4 de Outubro, talvez já não a tempo, embora o sistema Marconi tivesse sido estabelecido no princípio de Agosto, «como desejava a Inglaterra», que se dava como certa a entrada de Paiva Couceiro em Portugal com 4000 homens. Acrescentando, com vaga ironia, que se queda entre o humor e o pragmatismo do seu espírito de negociante, que as firmas comerciais da City tinham uma posição favorável à República.

Aspeto das tropas republicanas próximo de Vinhais, enviadas para combater
 as incursões monárquicas. Na frente reconhece-se António Granjo,
 que viria a ser primeiro-ministro, cargo em que foi assassinado
 no episódio da "Noite Sangrenta", em 1921.

Contudo, a 6 de Outubro, apesar da evidência dos factos, quando a Reuter dá a notícia da entrada do corpo de conspiradores na fronteira próximo de Bragança, Teixeira Gomes informa em telegrama: «Desmenti logo», o que constitui, ao que julgamos, uma das poucas precipitações do ministro português em Londres.

O rescaldo desta primeira incursão couceirista iria prolongar-se até Novembro, após o que a questão esmoreceu, mantendo-se contudo latente. Ressurge em Abril de 1912, em ofícios demonstrativos de novas preocupações do Governo Português. Confirmando este a possibilidade de nova incursão dos conspiradores, auxiliados por navios que se dirigiriam sobretudo ao Porto e tendo como comandante da esquadra Azevedo Coutinho, Teixeira Gomes reinicia as diligências junto do Foreign Office, no sentido de o Governo Inglês intervir junto da Espanha para que esta impeça as manobras conspirativas contra a República. O Governo Inglês recusa-se a intervir, argumentando que o caso deve ser tratado entre o Governo Português e o Governo Espanhol, através de notas «insistentes, justificadas e enérgicas». Aliás, essa questão era de tal forma considerada no âmbito dos dois governos peninsulares que o Governo Inglês recusara intervir quando o Governo Espanhol pedira os «bons ofícios do Governo Inglês (e esta informação era dada confidencialmente!) para impedir ou sustar a propaganda republicana de portugueses em Espanha». Ultrapassada, contudo, a segunda incursão, em Julho de 1912, o tempo parecia consolidar as instituições republicanas.

A ideia monárquica, desacreditada pelo longo fracasso da sua existência e pela memória viva do seu apodrecimento, não se mostrava capaz de vingar pela afirmativa, pela luta, pela recuperação dos seus valores expulsos. As incursões foram tentativas que tiveram um sabor a farsa, quedando-se entre dois receios: o de não mais voltar e o de ter de voltar. Mudou de estratégia por isso a reacção monárquica. Aniquilada na sua capacidade de disputar activamente o poder que perdera, a Monarquia estudou, com a astúcia de velha raposa, outras formas de regressar. E Teixeira Gomes, também astuto, descobre, algo desalentado, a táctica, inteligente e difícil de contrariar, do inimigo.

Páginas da Ilustração Portuguesa, com vários aspetos das incursões
 monárquicas de 1912, em Chaves.

Em 3 de Outubro de 1912 tem oportunidade de lançar o primeiro aviso: “[...] por informações colhidas em várias fontes cheguei à certeza de que as esperanças de restauração renasceram no espírito dos monárquicos, os quais contam com as dissenções dos grupos políticos de que se compõe o Parlamento português e o inevitável descontentamento que essas dissenções criarão no público, para renovar as tentativas de aliciamento tanto nos elementos militares como civis”.

Em 2 de Janeiro de 1913, como que num balanço do ano anterior, Teixeira Gomes renova as suas preocupações: as esperanças que os monárquicos alimentam baseiam-se «na falta de entendimento entre os vários partidos republicanos que aspiram ao poder, provocando assim a instabilidade dos ministérios e dificultando a sequência na execução de qualquer plano político e económico».

Depois deixa arrastar-se de novo pela luta contra a conspiração concreta, traduzida na compra e transporte de armamento e munições, na movimentação dos mais importantes agentes realistas e na forma como a imprensa inglesa trata a situação em Portugal e aproveita os mais pequenos incidentes para demonstrar a sua nunca sarada irritação contra o novo regime português.

É que o campo essencial da luta deixara de ser a Espanha ou a Inglaterra, os navios, o armamento ou a angariação de fundos. O campo passara-se para o interior, desenvolvendo-se em dois círculos privilegiados da reacção - as zonas rurais e a área do poder. Teixeira Gomes, consciente embora da situação, estava demasiado longe para se aperceber completamente do perigo que ela representava.

Ir-se-ia manter longamente mergulhado em campos de luta que mexiam mais com a sua sensibilidade — a questão colonial e o problema das campanhas de opinião desencadeadas em Inglaterra a favor dos presos políticos portugueses e contra a escravatura praticada nas colónias portuguesas.


Embora sendo indubitável que a preocupação dominante de Teixeira Gomes se prendeu, durante os primeiros tempos da sua permanência em Londres, com a consolidação das instituições republicanas e, portanto, com a luta contra os conspiradores monárquicos, é igualmente fora de dúvida que um assunto houve que constantemente surge como inquietante para o espírito do representante português — a política colonial.

A estratégia das potências europeias confrontava-se com as limitações dos recursos de cada uma. Cada vez mais o desenvolvimento do capitalismo necessitava de áreas de expansão, que só eram possíveis nas zonas periféricas da própria Europa ou nos territórios coloniais. A Alemanha, porque historicamente não tivera acesso à posse desses territórios, necessitava mais do que qualquer outra nação de uma solução urgente para a sua capacidade expansiva. O seu potencial não poderia deter-se perante meras formulações de carácter histórico, jurídico ou político. A tensão europeia fazia adivinhar perturbações a breve prazo.

Teixeira Gomes não tinha dúvidas acerca das dificuldades que se aproximavam. Na sua análise, a hipótese mais provável respeitava à eventual partilha dos territórios coloniais portugueses pelas potências europeias — e em especial pela Alemanha—, por forma a aplacar a gula expansionista de Berlim. E isto, Teixeira Gomes sabia-o, estava a negociar-se entre essas potências, especialmente entre a Inglaterra e a Alemanha. Por isso, o seu esforço de pesquisa se dirigia para a obtenção de informações que lhe possibilitassem compreender a estratégia que estava delineada.

A primeira questão que lhe surge é uma campanha organizada por um movimento antiesclavagista, do qual Teixeira Gomes, embora intuitivamente lhe dedicasse cuidados especiais, apenas compreenderia o significado quando pôde ligá-lo à existência de negociações secretas entre a Inglaterra e a Alemanha. De facto, em Maio de 1911, o representante português, a propósito da questão antiesclavagista, informa que tem «já um considerável dossier de documentos que a ela se referem, não perdendo ocasião alguma de interrogar quaisquer individualidades que se encontrem ligadas a esse movimento, habilitando-me para, em qualquer lance, encetar uma campanha de ataque contra os que falsamente deprimem os sentimentos humanitários dos Portugueses ou simplesmente rebater as suas acusações».

Mas, enquanto o problema do esclavagismo parecia ainda de menor importância, um outro dominava as atenções de Teixeira Gomes. Na verdade, apesar das repetidas afirmações de credenciados representantes ingleses aos seus insistentes pedidos de esclarecimento, ia-se visivelmente «acentuando a ideia de que não poderá haver harmonia perfeita entre as duas grandes potências enquanto a Inglaterra não entregar à Alemanha a melhor parte, se não a totalidade, das nossas possessões na África continental». Isto tornava-se publicamente claro quando um jornal alemão, o Morgen Post, publicava, em 4 de Dezembro de 1911, um artigo mostrando a conveniência de a Alemanha exigir parte das colónias portuguesas como compensação da sua abstenção nos negócios da Pérsia, que Teixeira Gomes comenta da seguinte forma: “Esta notícia espalhada pela Central News terá grande retumbância em Inglaterra, onde parte da opinião se vai declarando favorável a um acordo com a Alemanha, à custa das colónias portuguesas”.

Aspeto de instalações de secagem do cacau, em S. Tomé,
 na época em que Teixeira Gomes se opunha à campanha
dos "chocolateiros" britânicos na imprensa de Londres.

E, contudo, havia uma face dramática da questão colonial para um país como Portugal, impossibilitado de, por si só, se opor aos interesses das grandes potências. A resposta de Teixeira Gomes a uma questão do seu ministro dos Negócios Estrangeiros é extremamente elucidativa: “Tomo a liberdade de observar a V. Ex.a que não seria possível quando mesmo esta Legação dispusesse de capitais importantíssimos e pudesse influir directamente nos personagens políticos, quase todos membros da Câmara dos Pares, que dispõem dos jornais ingleses, não seria possível empreender uma campanha jornalística eficaz para preparar a opinião pública no que diz respeito à possibilidade de a Inglaterra obter ou não vantagens da Alemanha a troco da cedência das colónias portuguesas, sem previamente interessar nessa campanha um ou dois grandes partidos que disputam o poder. Ora isto é absolutamente inexequível pela razão óbvia de que nenhum desses partidos quereria tomar compromissos num assunto de cuja resolução pode depender a paz universal.

As perspectivas portuguesas iriam agravar-se quando Teixeira Gomes, em finais de 1912, se apercebe, através de alguns artigos publicados no jornal Spectator, que há intenção de ligar a propaganda antiesclavagista com o acordo anglo-alemão, por forma que ambas as questões «se reforcem mutuamente, a fim de acelerar a nossa ruína colonial». E Teixeira Gomes acrescenta: “Informações de origem diversa, mas segura, confirmam-me a realidade desses intuitos, não me restando actualmente dúvida de que se fazem preparativos para uma campanha formidável destinada a convencer o povo inglês de que nas colónias portuguesas existe a escravatura, incitando-o ao mesmo tempo a que se manifeste contra a aliança anglo-portuguesa, a pretexto de
que para a Inglaterra constitui uma vergonha manter uma aliança com países onde se exerce aquele abominável comércio.

A estratégia das grandes potências apresentava-se clara ao representante português. A hipótese de resolver o conflito latente à custa de Portugal tomava vulto e a conjuntura parecia confirmar uma credibilidade cada vez maior da via mais desfavorável a Portugal. Realmente, na opinião de Teixeira Gomes, «os horrores da guerra dos Balcãs [...] sugerem na opinião inglesa a necessidade de os evitar no que respeita a uma possível guerra com a Alemanha, e a ideia de que a partilha das colónias portuguesas aprasará ou evitará o conflito pode tomar vulto no público inglês, acarretando-nos toda a classe de dificuldades e dissabores». Não seria necessário muito tempo para que o plano geral parecesse ainda mais claro, já que tudo induzia Teixeira Gomes a pensar que a campanha antiesclavagista era auxiliada pela Alemanha. Efectivamente, «as informações particulares por mim colhidas em diversas fontes, tudo corrobora a minha desconfiança de que a Alemanha auxilia, se é que não dirige e subsidia essa campanha». E acrescenta, procurando enquadrar esta questão no quadro mais amplo da atitude alemã: A Alemanha é hoje a nação que maiores somas despende não só na espionagem militar, como nos trabalhos de sapa que facilitam a sua acção diplomática, não sendo portanto de estranhar que [...] não hesite em gastar quanto seja necessário para conseguir que nos vibrem um golpe decisivo, como seria a denúncia do nosso tratado de aliança com a Inglaterra. Este é indubitavelmente o seu objectivo.

Perante o iminente agravamento da situação, Teixeira Gomes apresenta, no alvorecer do ano de 1913, um plano de oposição às manobras alemãs, que, só por si, denuncia as bases de um projecto político e económico, jamais conseguido, da burguesia portuguesa.

Dele constam as seguintes medidas concretas:
1.º Organização da nossa administração colonial, devendo os funcionários a cujo cargo ela incumbe ter a necessária competência intelectual e moral;
2.º Assegurar as garantias devidas, conforme os tratados, aos negociantes estrangeiros que negoceiam nas nossas colónias;
3.º Extinção de quaisquer actos que possam induzir à suspeita de que nas nossas colónias se exerce o tráfico de escravatura;
4.º Activa defesa em Inglaterra contra a campanha e acusações dos «chocolateiros»;
5.º Conclusão do Tratado de Comércio Anglo-português;
6.º Organização de um plano económico e financeiro, tanto para a metrópole como para as colónias, que, aceite por todos os partidos, não corra o risco de gorar pelo facto de haver mudanças ministeriais;
7.º Organização e desenvolvimento do Exército Português, cujo plano possa realizar-se progressivamente, também ao longo das crises ministeriais.

Subsidiariamente, a constituição da Câmara de Comércio Anglo-Portuguesa, de modo a ter condições de vida, e a reorganização da Legação de Portugal em Londres, pondo-a em termos de poder atender com proveito às múltiplas questões que ela deve tratar.


A dependência de Portugal não poderia evidentemente solucionar-se através do projecto republicano. A situação, herdada da longa mediocridade política da dinastia de Bragança, prolongou-se para o pós-5 de Outubro e a República não conseguiu desembaraçar-se do essencial dessa dependência.

Os vaivéns de Teixeira Gomes entre a Legação de Portugal e o Foreign Office, excelentemente retratados na correspondência oficial do nosso representante, têm também o mérito de nos transmitir um quadro bem expressivo do tipo de relações que foi necessário manter (ou mesmo incrementar) com o Governo Inglês.

Reportando-nos apenas ao período em análise — Abril de 1911 a Julho de 1914 —, e sem qualquer pretensão de sermos exaustivos, pudemos retirar da correspondência oficial de Teixeira Gomes um significativo número de atitudes políticas do Governo Português demonstrativas da clara dependência que mantivemos relativamente à Inglaterra, à sombra de uma aliança centenária que bem raramente funcionou a favor de Portugal.

É assim possível surpreender cerca de duas dezenas de pedidos de interferência junto de outros governos feitos por Portugal ao Governo Inglês. Mais de metade respeita a interferências junto do Governo Espanhol, quase sempre a propósito dos problemas levantados pela presença de conspiradores monárquicos na fronteira da Galiza (embora mereçam destaque outros casos, como, por exemplo, a questão das ilhas Selvagens). Mas encontram-se neste rol igualmente pedidos de interferência junto dos Governos Alemão (fronteira de Angola), Holandês (problemas em Timor) e Chinês (problemas em Macau).

Foi possível também isolar vinte e três casos de pedidos de apoio, que se estendem desde o político ao diplomático e ao militar. Apoio diplomático em Madrid, no Japão, na Itália e na China; apoio político no problema da divisão das colónias portuguesas (assunto em que, paradoxalmente, a Inglaterra era parte interessada) e na visita, nunca conseguida, de navios de guerra ingleses a Lisboa. Apoio militar na formação de técnicos navais, no estudo por militares portugueses de certos esquemas da defesa de costa em Inglaterra, no conhecimento da forma de contabilidade dos arsenais ingleses e mesmo no fornecimento de um modelo de «mochila cirúrgica», que aliás custou perto de onze libras. Estas informações militares, quando eram fornecidas pelo Governo Inglês, traziam sempre um aviso de confidencialidade e uma inocente advertência de abertura de excepção relativamente ao pedido do Governo Português.

Mas é ainda mais extenso o número de pedidos de informações sobre procedimentos do Governo ou da Administração inglesa ou mesmo da própria sociedade - uso de hábitos talares em Inglaterra, organização da Cruz Vermelha e da Polícia de Londres, condições financeiras e técnicas da instalação do sistema radiotelegráfico, lista das mercadorias com isenção, funcionamento das minas de carvão e do cerimonial de Estado.

Bilhete postal da época da Grande Guerra, salientando
a aliança entre Portugal e a Inglaterra.

Detenhamo-nos contudo num caso exemplar — o do reconhecimento da República — e concluamos que a paciência política pode atingir certos limites, especialmente quando as condicionantes se apresentam exageradamente influentes.

Tratava-se pois de conseguir o reconhecimento da República pelas potências europeias, e em especial pela Inglaterra, monarquia que todas as outras reconheciam com primazia nos assuntos portugueses. Contudo, as «altas esferas de influência», como as costumava apelidar Teixeira Gomes, nunca se haviam mostrado osso fácil de roer pela novel diplomacia portuguesa. Enquanto a República patenteia, debaixo dum nervosismo crescente, a necessidade, a urgência, o dever do reconhecimento, a Inglaterra, vagarosa, exasperante e calculista, promete e adia, condiciona e joga.

Arrastam-se as negociações, justifica a Inglaterra a sua demora, põe condições e marca prazos diversos, numa espécie de jogo de polícias e ladrões, em que sempre ganham os polícias.

Em 10 de Maio de 1911, Langley, subsecretário de Estado do Foreign Office, promete o reconhecimento imediatamente após as eleições, para logo em 26 adiantar que tal será impossível antes da eleição do chefe de Estado, já que só este pode aceitar credenciais. Mas em 31 torna-se necessário que a Constituinte reconheça o actual governo! A paciência diplomática de T. Gomes continua intocável; a paciência política de Bernardino Machado é que está por um fio.

Mas o Foreign Office reserva mais surpresas. Em 24 de Junho alude «ocasionalmente» à questão da indemnização dos bens das igrejas inglesas e à necessidade de proceder ao reconhecimento da República por acordo com outras potências europeias. Finalmente, sem máscara, põe novos dados na mesa: a questão das igrejas é condicionante do reconhecimento.

Por isso, a 17 de Julho, Bernardino Machado define a posição portuguesa: «[...] reconhecimento quando quiserem.» Posição a que as prementes necessidades da política bem depressa vão retirar significado.

Em 15 de Agosto, o Governo Inglês apresenta o último «pedido» para modificação do regulamento da questão das igrejas, exactamente para ser alterada a segunda parte do artigo 3.º, referente ao registo das igrejas. Assente a modificação e aceite o texto do regulamento, o reconhecimento tomou-se iminente.

Veio a ocorrer em 11 de Setembro. Foi, apesar de tudo, uma difícil vitória da diplomacia portuguesa.


Finalizamos com um episódio que caracteriza, de forma exemplar, a natureza das relações estabelecidas entre Portugal e a Inglaterra. Os actos políticos demonstrativos do apoio inglês às instituições portuguesas, tradutores da efectiva vigência da velha Aliança Luso-Britânica, revestiam-se permanentemente de grande significado para o Governo Português, que, através deles, podia demonstrar a sua estabilidade e o seu crédito.

A visita de um vaso de guerra inglês ao porto de Lisboa foi meta diplomática de muitas horas de conversação entre Teixeira Gomes e vários funcionários do Foreign Office, incluindo o próprio ministro, Sir Edward Grey. Após a segunda incursão no Norte de Portugal, em Julho de 1912, a Espanha faz deslocar a Cascais, em atitude classificada de provocação evidente, uma pequena esquadra — «três fracos contratorpedeiros», como os classifica com disfarçado temor Augusto de Vasconcelos, ministro dos Negócios Estrangeiros. Por isso o Governo Português pede encarecidamente à Inglaterra que mande alguns vasos de guerra a Lisboa, em ofício de 15 de Julho, e a Inglaterra, quatro dias depois, nos aconselha a que não consideremos provocação a presença dos contratorpedeiros em Cascais, pois tal é a posição do Governo Inglês. Aceitámos, e só em 9 de Setembro, quando os fracos contratorpedeiros haviam jádeixado em sossego o mar de Cascais, renovamos o insistente pedido; mas apenas em 30 de Setembro do ano seguinte se atreve Teixeira Gomes a dizer que as conversações para a visita de navios de guerra ingleses a Lisboa estão bem encaminhadas. A 16 de Outubro de 1913, Teixeira Gomes pode informar que o cruzador Active visitará Lisboa, relatando em pormenor os meandros das «altas esferas influentes» que acederam finalmente a este acto de tão grande significado.

Porém, dez dias depois, as mesmas esferas, sempre atentas aos pretextos, sempre inclinadas a jogar o seu peso, aparentemente contrário à manifesta boa-vontade do Governo Inglês, faziam recuar ao ponto zero todo o esgotante processo de conversações — a visita do Active foi cancelada.

Por essa altura, Sir A. Hardinge, ministro inglês em Lisboa, fora já transferido para Madrid95. Um seu relatório, redigido em termos vigorosos contra a visita do Active, constituiu a base da mudança de atitude do Governo Inglês, que, note-se, interrompeu a viagem do navio quando este seguia já a caminho de Lisboa.

Segue-se a este incidente uma intensa troca de notas entre Teixeira Gomes e Afonso Costa, interinamente acumulando os Negócios Estrangeiros com a presidência do Ministério. A opinião de Teixeira Gomes é que só Sir Hardinge pode desfazer a má impressão que os seus relatórios causaram através de uma rectificação que devia ser negociada em Lisboa, já que o novo ministro inglês não se atreveria a desdizer, de ânimo leve e em curto prazo, as opiniões do seu antecessor. Afonso Costa aceitou a sugestão e tentou conseguir uma forma satisfatória para ambas as partes. Mas tão resistente se mostrou o ministro inglês, de tal modo tentou deixar tudo na mesma através de dúbias promessas que bem demonstraram a sua má-fé, que Afonso Costa, num desabafo que a política da paciência não deveria permitir, mas que a paciência da política nem sempre consegue suster, telegrafa a Teixeira Gomes: «Com este ministro da Inglaterra nada mais tratarei.»

Mas de tal modo o incidente ficou latejando entre os dois países, que o primeiro navio de guerra inglês só viria a Lisboa já após o início da primeira guerra mundial.




sexta-feira, 25 de novembro de 2016

CHAVES E A REPÚBLICA



Na quarta e última parte da conferência “Chaves e a República” trato especialmente das relações com a Espanha, falando sobre o “perigo espanhol” e o iberismo na atualidade.
Junto um magnífico filme da Cinemateca Portuguesa sobre Vinhais e arredores, a propósito da 1ª incursão monárquica em 1911. Dedico-o a todos os amigos vinhaenses, pode ser que apareçam por ali alguns dos nossos avós (como o filme está protegido tem que se aceder através do link indicado).

Vendo toda a conferência, talvez possa dizer que aproveitei a oportunidade para abordar questões que teria sido muito difícil abordar em outras circunstâncias… Aqui as deixo!

 https://www.youtube.com/watch?v=3LOiYvFHA4w

 



Inúmeros intelectuais, pensadores, simples opinadores e pessoas comuns continuam a reflectir (porventura a inquietar-se) com a questão peninsular. A dinâmica, profundidade, preocupação e continuidade da discussão é a melhor forma de consolidar caminhos. Há uma interrogação fundamental nesta questão dos estados peninsulares, que é esta: a Península é dual? A nossa resposta deverá ser - Sim, a Península é dual, a Península comporta dois Estados.

Outra questão que nos assalta imediatamente: Existe o “perigo espanhol”?

Como devemos responder? Será que, na História portuguesa, faz sentido falar do “perigo espanhol”? Acho que faz todo o sentido. O “perigo espanhol” foi uma condição da dualidade peninsular. Estaríamos hoje a explicar questões completamente diferentes se nunca os portugueses tivessem acreditado nessa latente ameaça, ou se muitos espanhóis nunca tivessem dedicado qualquer pensamento à “inexplicável” dualidade peninsular. Que muitos estudiosos espanhóis, como felizmente existem, se preocupem em abordar um ponto sensível na história dos dois países, faz-nos pensar que o interesse comum, o entendimento mútuo, a relação a dois é, no presente, uma conquista definitiva. As vozes contrárias sobreviventes são um fenómeno comum às conquistas consolidadas.

Mas há ainda outra pergunta latente: A integração há-de fazer-se?


A esta pergunta, talvez possamos responder: Portugal e Espanha estão apenas “condenados” a serem vizinhos. O esforço de entendimento segue paralelo com a capacidade de nos conhecermos. Quanto mais os portugueses se interessarem pelo que se passa em Espanha, e quanto mais os espanhóis se interessarem por Portugal, mais vantagens poderemos tirar da nossa vizinhança. Numa época em que todo o mundo é cada vez mais vizinho, não fará sentido que à proximidade proporcionada pela mundialização, não juntemos as vantagens da proximidade física. Os novos medos que pairam em torno das nossas mútuas relações económicas devem poder constituir mais um episódio de afirmação de ambos, em vez de servirem de pretexto para o regresso de fantasmas que já não fazem sentido.

Então, podemos formular uma nova pergunta: E o Iberismo, sobrevive?


Sobrevive. Reduzido à dimensão a que desde há muito se confinou, não deixa de reaparecer com alguma facilidade. As nossas sociedades, maduras e democráticas, mantêm-no como uma marginalidade. Espanha e Portugal são duas realidades, cada uma com as suas fraquezas e com os seus argumentos. O ponto alto da sua afirmação igual foi a entrada simultânea na então Comunidade Económica Europeia em 1986.

Poderemos hoje dizer que a Europa encerrou a nossa questão? Não, não podemos. Nem podemos permitir que a Europa encerre questões de identidade. Portugal e Espanha partilham uma península dual. São duas realidades vizinhas, mas diferentes; são dois cooperantes, mas afirmam-se como dois pólos. Só nos reconhecemos na nossa diversidade. Sempre teremos questões para resolver.

O que resta então, para privilegiarmos e expandirmos as nossas relações de amizade, cooperação, mútuo reconhecimento e respeito? Temos de conhecer-nos melhor. Temos de olhar-nos nos olhos e aprender a realidade do outro. Temos de partilhar conhecimento, informação, experiências. Devemos quebrar barreiras psicológicas, reduzindo-as ao que é próprio de cada identidade. Temos um longo caminho a percorrer, mas a Europa a que ambos pertencemos permitiu-nos, nestes quase vinte e cinco anos dar passos gigantescos em frente. Saberemos agora dar passos, por nossa conta? Acho que saberemos.

Poderemos então perguntar-nos se vale a pena abordar estas questões que aqui nos reúnem, lembrando uns combates entre defensores da República e conspiradores monárquicos apoiados e incentivados por autoridades espanholas, ocorridos em 1912. Podemos dizer que é uma questão longínqua na história comum e incómoda para ambos os lados. Mas é por isso mesmo que vale a pena falar deste episódio. É uma oportunidade de alargar o nosso conhecimento mútuo. Não podemos, nem conseguiríamos, apagar o episódio da memória portuguesa. Esse facto, tão exagerado em Portugal, deve compreender-se como um incidente nas relações peninsulares, enquanto facto em si. A construção que dele fizemos, a dimensão que lhe atribuímos, faz parte de um processo interno. É um processo de identidade, necessariamente elaborado contra o outro. Só que a liberdade conquistada por ambos os povos, a consolidação da democracia em cada um deles, o caminho que percorremos agora conjuntamente, acompanhados por outros povos europeus, fazem de nós passageiros da mesma rota, caminhantes de outras utopias.

E não me queiram convencer que estão moribundas as utopias europeias! Porque eu acredito nelas.

Muito obrigado a todos. Muito obrigado ao Regimento de Infantaria 19. Muito obrigado à cidade de Chaves.




quinta-feira, 24 de novembro de 2016

CHAVES E A REPÚBLICA





Na terceira parte da conferência “Chaves e a República”, faço um passeio pela História, uma reflexão entre a República e o papel dos historiadores… Nestas conferências há sempre a tentação de aproveitar a ocasião para falar de temas que nos são caros, difíceis de abordar noutras circunstâncias.

  
Parte 3

Litografia de Cândido da Silva (?) alusiva
à revolução republicana de Outubro de 1910. 
Passemos então a outro assunto sobre o qual gostaria de reflectir, no âmbito do centenário da República que aqui também evocamos.

As questões principais do novo regime português são conhecidas. A posição de Portugal no Mundo não se alterou substancialmente com a implantação do regime republicano. O essencial manteve-se, e tinha a ver com a ligação à política da Inglaterra, o equilíbrio das relações com Espanha (que a República agravou) e a defesa do império colonial. Especificamente, como problema novo e inerente ao regime republicano, deve considerar-se a necessidade de ver a nova situação reconhecida pela comunidade internacional.

Internamente são vários os desafios das novas autoridades – a consolidação interna das novas instituições, o apoio do Exército ao regime, a resolução das relações com a Igreja e a difusão do ideal republicano no seio de uma sociedade estruturalmente atrasada.

Não faltavam desafios às novas autoridades republicanas!

Visitemos então esses tempos, como amantes da História, apaixonados pela investigação do tempo dos nossos avós, interessados em colher lições, em compreender atitudes, em reconhecer a memória que nos foi legada.

Não vamos falar de correntes e teorias da História. Quando analisamos uma época histórica nem sempre seguimos teorias. Por vezes seguimos uma ideia, a nossa ideia. Essa ideia pode ligar-se à nossa vivência pessoal. Podemos ser, por exemplo, construtores de pontes, de diálogos, de reconhecimentos, de aproximações. Não desejamos acentuar rupturas – queremos acalmar os ressentimentos, atenuar os mal-entendidos, desvalorizar as mágoas.

As incursões monárquicas destes difíceis anos de 1911 e 1912 puseram em causa as relações de vizinhança entre os dois países ibéricos – Portugal e Espanha. Mas se nos servirmos deste infeliz episódio das nossas relações para chegarmos ao sentido actual da nossa história comum, temos de o reduzir àquilo que ele foi na prática, como acontecimento, não o encarando nem na sua dimensão mítica, nem como sinal de qualquer utopia.

Por outro lado, é sempre necessário retomar o estudo da História, porque só assim ela se mantém viva. Uma comunidade científica e académica atenta regressa sempre a velhos debates, para além, evidentemente, de nos lançar novos desafios. Mas as condições de cada época propiciam a reabertura de discussões e polémicas que pareciam adormecidas. Esta questão que aqui estou lembrando faz parte daquelas pendências recorrentes. Portugal e Espanha merecem que possamos sempre reabrir, nas circunstâncias de cada época, as nossas permanentes pendências.

Partir de um facto, entre muitos outros, é um privilégio do historiador. Na linha da História, ele coloca-se num momento e num lugar e, partindo de ali, observa o passado e pronuncia-se sobre o futuro. Outro privilégio é que ele conhece o futuro. Podemos escolher as incursões monárquicas. No centenário da República que também aqui comemoramos, não deve surpreender-nos esta escolha. Um momento delicado das relações peninsulares, uma questão longamente debatida, uma lembrança porventura embaraçosa. Mas ainda assim, não nos pertencerá a palavra final. Em História, ninguém tem a palavra final. Também por isso, a História não morre.

A verdade é que, depois de tantas teorias que encaixilharam a História, estamos, na presente época, de regresso à narrativa. Aos factos. Às personagens. Neste caso, às incursões monárquicas em Portugal a partir da Galiza em 1911 e 1912 e ao mundo complexo que rodeia os protagonistas.

Devemos confrontar os intervenientes, pesar as suas ideias e actos, analisar os respectivos envolvimentos. Explorar, do ponto de vista histórico, os acontecimentos, as suas razões e os respectivos resultados. Passear pelos campos de batalha (Vinhais e Chaves), pelos teatros de operações (Galiza e Trás-os-Montes) e pelas respectivas retaguardas (Lisboa e Madrid, e mesmo Londres – a propósito, não será Londres um dos eixos fundamentais para deslindar o enredo desses pesados meses?). Este passeio abre-nos caminhos de reconhecimento para múltiplas observações, e para uma apreciação dos factos. A prudência do historiador obriga-o a dar expressão às hesitações que descobre nos actores, às dúbias interpretações que cada um faz do seu próprio envolvimento, às dificuldades que os homens do terreno e mesmo das chancelarias têm em conhecer as linhas gerais da grande política.

Bem vistas as coisas, as incursões são um pretexto para todas as partes. Pode ter sido fabricado ou simplesmente aproveitado. O que está subjacente ao episódio militar, é uma enorme operação de propaganda (numa expressão de uso mais tardio) de ambas as partes. A exaltação do ideal monárquico através da acção, e a glorificação das novas instituições republicanas através da vitória sobre a ameaça à integridade da nação.

Há quem defenda que a História é a história dos vitoriosos. A República (todos os sistemas, todos os regimes, todos nós?) precisava de vitórias. Conquistara com um golpe desarticulado (um golpe de sorte?) o poder. Herdara um país, mas era imperioso criar um estado, desejava edificar um regime, queria consolidar um partido, precisava de um exército. Estado-regime-partido-exército: eis o percurso da República. O Exército só o construiu a partir de Chaves. Um exército só se solidifica com a materialização de “ameaças”. Os combates de Vinhais e de Chaves concretizavam as ameaças – o regresso dos monárquicos e o perigo da intervenção de Espanha. Para o Partido Republicano as circunstâncias caíam-lhe do céu. Podemos nós questionar o aproveitamento que delas fez? Resta-nos apenas analisar os acontecimentos e (só cada um o decidirá) tirar deles paralelismos para outras circunstâncias e para outros cenários, de outros passados ou mesmo de diferentes presentes.

Tenho a ideia que, como historiadores, devemos ser pesquisadores de realidades, analistas de factos, investigadores de provas. Dando a devida importância à dimensão do mito, do processo ideológico, à construção da identidade, às utopias persistentes. Vinhais e Chaves são, para além de factos locais com repercussão internacional, emergências de uma nova mitologia republicana, feita evidentemente de heroísmos, de vibração popular e de afirmação de novos porvires. A habilidade dos republicanos foi a de explorarem os acontecimentos no limite da rotura com Espanha. Não foi a primeira vez, nem a última na história dos dois países vizinhos.

E sempre que as circunstâncias o proporcionam, o problema está de regresso. Cabe pois aqui, perguntarmos se Portugal é um enigma. A verdade é que toda a realidade humana comporta um enigma. A constituição, sobrevivência, afirmação e identidade das nações, como hoje as conhecemos, sempre nos provocarão novas interrogações. A História não tem outro fim senão explicar os sucessivos enigmas das construções humanas. A questão nacional é uma permanente preocupação intelectual. Poucos pensadores escapam a esse desafio. Enunciar os portugueses que foram atraídos para este assunto seria enunciar uma imensa galeria de todos os que edificaram um pilar importante da identidade portuguesa.

Nessa medida, Portugal, como muitas outras realidades humanas, foi e continua sendo, um enigma. Continuar a estudar os acontecimentos que aqui nos reúnem é um contributo para a descoberta das chaves que o explicam.




terça-feira, 22 de novembro de 2016

CHAVES E A REPÚBLICA


Na segunda parte da conferência "Chaves e a República" dou destaque a uma memória do capitão Maia Magalhães sobre os acontecimentos e o ambiente em torno da implantação da República e da reação das populações rurais.
Esta memória encontra-se no Arquivo Histórico Militar e veio parar-me às mãos quando preparava a conferência. É um exemplo do muito que se esconde nos arquivos à espera de ser descoberto.
Na conferência fiz um desafio ao presidente da Câmara para a sua publicação, mas como quase sempre, caiu em saco roto.
Maia de Magalhães foi para Chaves como chefe de estado-maior do sector de defesa entre os rios Mente e Cávado, criado para fazer face à ameaça das incursões.
(Nota: os seus apontamentos trouxeram-me à memórias as ações da dinamização cultural, a seguir ao 25 de Abril!).



Parte 2


Mas não quero deixar os acontecimentos de Chaves, sem referir algumas interessantíssimas passagens das memórias do capitão Maia Magalhães (que estão no Arquivo Histórico Militar e que julgo inéditas), memórias que escreveu a propósito de vários reconhecimentos nos arredores de Chaves, antes da entrada dos monárquicos.

Alguns defensores de Chaves, num pequeno
filme da Cinemateca Portuguesa, 1912, em
http://www.cinept.ubi.pt/pt/filme/8731
O primeiro apontamento diz o seguinte:

“Chegando a Chaves sem conhecimento algum do meio, nem da região, e tendo simplesmente uma indicação muito geral sobre as ocorrências que traziam toda a gente alarmada, comecei por reunir todos os elementos que julguei indispensáveis para formar a minha opinião (…)

Eu nunca me convenci, confesso, que os conspiradores da Galiza, apesar de saber que os havia realmente nas povoações espanholas próximas da raia, se aventurassem a entrar em Portugal, principalmente depois de descobertos os seus manejos; mas se realmente, numa alucinação de espírito, e para justificarem a imensidade de dinheiro que com eles gastavam outros monárquicos mais comodistas, chegassem a entrar, nunca pelo meu cérebro passou a ideia de que pudessem alcançar o mais pequeno sucesso sobre tropas do Exército Português ou mesmo sobre os grupos civis absolutamente dedicados à causa da Pátria e da República.

Mas se não entravam e não podiam alcançar vitórias, alguma coisa conseguiam (e nisso foram sempre poderosamente auxiliados pelos que dentro do País não se puderam conformar com o novo estado de coisas por serem ou feridos nos seus interesses ou despeitados (…) – é trazerem o País sobressaltado, criando uma atmosfera de dúvida terrível sobre a possibilidade de guerra civil, promovendo a ida de numerosos contingentes para a fronteira (…) e aumento fabuloso das despesas”.

E num segundo apontamento refere o capitão as suas deambulações pelas aldeias:

“As informações que a mim me competia directamente colher eram unicamente as que diziam respeito à zona onde teria de operar. Tinha de fazer largos e completos reconhecimentos do terreno que eu desconhecia por completo. Só o estudo consciencioso e detalhado do terreno me permitia fazer uma ideia da forma como poderia ter de empregar as forças. (…)

Eu porém não me podia limitar a ver terreno (…) a minha missão tinha de ir mais além (…) Tinha de fazer também o meu reconhecimento às aldeias, procurando penetrar intimamente o espírito das populações e perceber-lhe a sua atitude em face das circunstâncias, pois precisava de saber (…) se as populações coadjuvariam as nossas forças, se se conservariam indiferentes, ou se, pelo contrário, nos seriam hostis.

Aí nessas aldeias aproveitava sempre a ocasião para fazer a propaganda das novas Instituições, em conversas com os habitantes, dizendo-lhes a verdadeira significação da mudança de regime, e elucidando sobre as imensas vantagens da República principalmente para as classes pobres, que foram sempre as mais desprotegidas pela Monarquia.

Esta propaganda, que eu reputo hoje mais do que nunca, em face da infamíssima campanha que os reaccionários têm feito contra a República, absolutamente necessária, era uma das mais importantes medidas de defesa que devíamos empregar, e foi por isso que eu e alguns camaradas meus andámos por nossa iniciativa de aldeia em aldeia, abrindo quanto possível os olhos aqueles povos, que recolhidos à sua ignorância, nada mais sabiam do que as formidáveis patranhas que os mal intencionados inimigos da República lhes faziam acreditar.

É fantástico, inacreditável a série de disparates e de infâmias contra a República que esses cavalheiros, que se julgavam os donos desses humildes povos, se lembravam de inventar para desacreditar a República e para eles não perderem o seu antigo prestígio.

A Lei da Separação, que eles deturparam a seu modo, deu-lhes largo campo para essa campanha, e com o que diziam de tal forma indispunham essas gentes contra as Instituições, que até consideravam um pecado pronunciar a palavra República. Era vulgaríssimo ouvir nessas aldeias, principalmente as mulheres, porque os homens poucos a princípio apareciam e pouco falavam, que a República queria tirar-lhes a religião, mandava incendiar ou arrasar as igrejas, quebrava os santos, roubavam os objectos preciosos que nelas havia, que os republicanos eram uns hereges, uns malfeitores que matavam e roubavam toda a gente e que a República era a causa de todos os males que lhes aconteciam.

Numa das aldeias, quando nós aparecemos, umas mulherzinhas pediam pelo amor de Deus que não levássemos a coroa da Nossa Senhora!

Ficavam muito espantados, e a princípio não acreditavam, quando lhes dizíamos e provávamos a falsidade de tudo isso e lhe dávamos a verdadeira interpretação das leis da República”.

O capitão Maia de Magalhães continua ainda com as suas memórias, oferecendo-nos um quadro vivo e original da sua missão. Não vou contudo insistir na sua leitura. Mas deixo um desafio a Chaves, porventura ao sr. Presidente da Câmara, de podermos publicar estas memórias de um capitão que, embora desconhecedor destas terras, ou talvez por isso, nos oferece delas e das suas gentes uma lembrança viva e digna de ser lembrada.


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

CHAVES E A REPÚBLICA



Como disse no apontamento introdutório, o texto que se segue, em quatro partes, é uma conferência que fiz em Chaves no dia 26 de Março de 2010, dia do Regimento de Infantaria 19, a convite do seu comandante, coronel Barbosa.

Nesta primeira parte, abordo a questão principal, que são as incursões monárquicas e o seu significado.



Foi ali, na Biblioteca Pública Municipal de Chaves,
que fiz a conferência.
Parte 1

Para a I República e os republicanos, Chaves tornou-se um nome simbólico. Depois do difícil parto da implantação da República, o novo regime viveu períodos complicados, o primeiro dos quais ocorreu aqui, na fronteira Norte, com as chamadas incursões monárquicas.

Como sabemos, poucos monárquicos defenderam o seu regime, em 1910. Paiva Couceiro, oficial do Exército, e alguns outros seus camaradas, a quem se juntaram alguns civis, foram os únicos que verdadeiramente se opuseram ao movimento republicano. Não tendo obtido êxito nas suas tentativas imediatas, apenas lhe restou o exílio em Espanha. Aí, com a complacência das respectivas autoridades, criaram e ampliaram um movimento de resistência, com o objectivo de restaurar a Monarquia em Portugal.

Recebidos e auxiliados no país vizinho, os conspiradores monárquicos movimentaram-se com bastante facilidade nas regiões fronteiriças espanholas. Passado um ano da implantação da República, acharam-se com força para a primeira incursão em território português, e entraram em Vinhais, onde hastearam a bandeira monárquica no dia 5 de Outubro de 1911. Este acontecimento causou um primeiro frémito republicano. O perigo monárquico, ampliado até extremos, tornou-se uma das principais ameaças à República e ao regime recentemente implantado e as incursões monárquicas através da fronteira espanhola do Norte, a mais credível possibilidade de os monárquicos perturbarem o regime republicano.

Vencida, com relativa facilidade, a tentativa monárquica de Vinhais, a verdade é que a República redobrou de atenções, em relação às hostes couceiristas que de novo se refugiaram em terras de Espanha.

Estas forças monárquicas, organizadas em torno de Paiva Couceiro e acolhidas, apoiadas, armadas e municiadas, de forma ostensiva, mas não oficial, por algumas autoridades espanholas sob o chapéu do rei Afonso XIII, voltariam ao ataque a território português, tentando entrar em Chaves, em Julho de 1912.

A guarnição militar de Chaves era nesta altura constituída pelo Regimento de Infantaria 19 (que aqui se mantém), comandado pelo tenente-coronel Augusto César Ribeiro de Carvalho, pelo Regimento de Cavalaria 6, forças de Artilharia 4 e serviços administrativos de apoio.

A sede da 6ª Divisão do Exército era em Vila Real, cujo comandante, coronel Francisco Gorjão, avançou para Chaves em 3 de Julho, acompanhado pelo seu chefe de estado-maior, tenente-coronel Alfredo May. Em face da ameaça, tinha-se constituído um sector de defesa entre os rios Mente e Cávado, cujos comandante e chefe de estado-maior, respectivamente tenente-coronel Custódio Alberto de Oliveira e capitão Maia Magalhães, também estavam em Chaves.

As medidas de contenção foram tomadas. Os couceiristas apareceram em território português a 7 de Julho de 1912. Houve pequenas escaramuças e um combate em Vila Verde, vindo a acção militar principal a ocorrer no dia seguinte, quando os conspiradores monárquicos tentaram entrar em Chaves e foram impedidos pelos defensores da vila (ficariam conhecidos como “Defensores de Chaves” todos os que participaram nos combates e que enfrentaram o ataque). Morreram 15 pessoas, dois defensores e 13 monárquicos e ficaram feridas mais 12 pessoas, sendo seis militares, cinco conspiradores e um civil.

Os combates não foram prolongados, não houve um número exagerado de vítimas, mas a defesa de Chaves transformou-se numa enorme bandeira da República, habilmente aproveitada para uma primeira reconciliação dos republicanos com o Exército.

Não deixa de ser interessante a referência a algumas passagens do relatório do coronel comandante da 6ª Divisão do Exército acerca dos acontecimentos.

Diz assim: “Evitou-se que Chaves caísse em poder dos rebeldes, o que seria o começo de uma guerra horrorosa, atiçada pela questão religiosa que continua latente, e que seria de tristes consequências para a nossa Pátria. Foram batidos e obrigados a repatriar-se, desaparecendo a ameaça, já tão prolongada, de incursões, que exigia despesas extraordinárias, da parte da República, e originava uma perturbação interna, que nos não deixava tratar a sério dos problemas importantes da nossa administração”.

E continuava: “A interferência do elemento civil, apresentando-se entusiasticamente em defesa da República, desfez uma lenda de que as populações do Norte acolheriam Paiva Couceiro como um restaurador ansiosamente esperado”.

E ainda mais adiante, nas propostas de recompensas, adiantava o Coronel Gorjão: “Chaves merece bem uma recompensa pela forma heróica como a sua população se portou e pelos estragos que algumas das suas casas sofreram com o bombardeamento dos rebeldes. Essa recompensa parece-me que deve ser primeiro que tudo a sua ligação acelerada com o resto do país, por meio da prolongação do caminho-de-ferro do Vidago (…). A conclusão das estradas de Chaves a Vinhais, de Vidago a Boticas e de Chaves a Braga, que parece impossível estarem por concluir há longos anos”.

Como se vê, não se devem perder as ocasiões, mas não julgo que estas propostas tenham tido um grande acolhimento por parte das autoridades… É que, a seguir a Chaves, a República tinha outras grandes preocupações pela frente.