sábado, 12 de novembro de 2016

INDEPENDÊNCIAS, ALGUMAS QUESTÕES DO PERÍODO DE TRANSIÇÃO



No ano de 2015 foram várias as iniciativas de comemoração dos 40 anos das independências dos novos países africanos resultantes dos processos de transferência de soberania concretizados em 1975. Eu fui convidado para a Conferência organizada pelo ISCTE “40 Anos de Independência”, em 18 de Novembro, onde apresentei uma comunicação sobre a minha experiência pessoal. Não chegou a ser publicada.
Para a sua publicação neste blogue divido-a em duas partes.



Parte 1

Resultado de imagem para programa do mfa
Foi suprimida uma alínea
 do Programa do MFA
 sobre a questão colonial
Ao iniciar a minha participação neste evento, gostaria de fazer algumas saudações.
Em primeiro lugar, tenho todo o gosto em saudar os organismos e entidades participantes neste evento e que se têm empenhado no estudo das nossas Histórias recentes, com valorização da componente da recolha de documentos da mais variada natureza e também de testemunhos de protagonistas. Quero aqui realçar a A25A que, embora não constando no conjunto dos apoios a este evento, está evidentemente ligada a todo o programa que desenvolvemos este ano, nas comemorações dos 40 anos das independências e das “memórias da Revolução”.
Em segundo lugar, gostaria de saudar os países que obtiveram a sua independência em torno do 25 de Abril de 1974, pela comemoração dos 40 anos da sua completa libertação e salientar o esforço de cada um, no contexto das suas especificidades, para ultrapassarem os obstáculos que têm surgido nos seus caminhos.
Poderia aqui destacar a República de Moçambique, se me permitem, porque nela vivi o período de transição, desde Setembro de 1973 (formação do movimento dos capitães) até ao dia seguinte à independência, em 25 de Junho de 1975.
Também quero lembrar todos os militares portugueses que participaram no período de transferência de soberania em qualquer dos territórios, e salientar o seu sacrifício, a sua abnegação a uma causa que pode hoje parecer estranha, e a sua contribuição para um processo vital para o posicionamento de Portugal no mundo de então.
Desejo ainda saudar todos os dirigentes e responsáveis dos novos países que souberam compreender a situação delicada dos processos de transferência, que viveram em conjunto as nossas preocupações e angústias, e que sempre enalteceram o entendimento conseguido por todos, nesses tempos de duras provações. E em especial aqueles que ainda hoje se mantêm nossos amigos.
Quero saudar também todos aqueles que lutam, no dia-a-dia, pelo conhecimento, pela ciência e pela informação, e que se envolvem em projetos de informação e recolha da nossa memória, em especial desse tempo de grande envolvimento coletivo, contribuindo para a construção de comunidades dignas, dialogantes e pacíficas.

Estamos aqui para evocar o tempo das independências, passados que são 40 anos, e revisitar os períodos de transição em 1974-1975, que nos levou do 25 de Abril de 1974 às transferências de soberania e às proclamações das independências dos novos países. Foram meses de grandes acontecimentos, de grande empenho, de algumas angústias e de muita satisfação pelo dever cumprido.
Um esclarecimento que também é importante. Assumo aqui um papel de militar português do Movimento dos Capitães/MFA, presente em Moçambique, como disse, e portanto, participante…

Para realçar esses dias de muita ansiedade e apreensão, será necessário aprofundar as circunstâncias desse tempo. Desde o dia 25 de Abril, o MFA assumiu o protagonismo que o Programa do MFA lhe concedia. A principal missão que considerou sua, foi a de preparar os militares e as Forças Armadas para transições pacíficas, em ambientes muito diferentes dos anteriores. Isso, que parece simples, não foi uma tarefa fácil.
Pelas hesitações do poder emergente, em Lisboa, em especial pelas posições do general Spínola, nunca se conseguiu que o governo central definisse, em relação aos territórios coloniais, uma posição consentânea com os novos tempos – reconhecimento do direito à independência e reconhecimento dos movimentos de libertação como legítimos representantes dos seus povos.
Os principais membros do MFA presentes nos diversos territórios não tinham dúvidas sobre o caminho a seguir, mas a sua condição de militares envolveu-os (envolveu-nos) numa insuperável contradição, a que só Lisboa podia pôr termo.

Voltemos por isso, um pouco mais atrás.
O quadro político-militar entre meados de 1973 e o 25 de Abril de 1974 era muito favorável ao surgimento de um movimento militar com o objetivo de derrubar o regime do Estado Novo.
Em primeiro lugar, havia uma dissidência, mais ou menos subterrânea, entre a instituição militar e o regime, do qual as Forças Armadas tinham sido um duradouro suporte. Essa dissidência surda vinha da questão da Índia, e ameaçava repetir-se na Guiné.
Em segundo lugar, as Forças Armadas atingiam o limite da sua capacidade de resistência a um conflito armado muito desgastante e muito prolongado, sem que, do ponto de vista político, se vislumbrasse uma solução aceitável para lhe pôr fim.
Em terceiro lugar, era visível, para os mais atentos, uma degradação do apoio social ao regime e havia, na sociedade, uma saturação evidente em relação à guerra.

Pareciam criadas as condições para que os militares atuassem, em moldes tradicionais.
Só que a hierarquia das Forças Armadas estava tão comprometida na solução militar da questão colonial como o próprio regime. O resultado foi que as Forças Armadas, através dos seus altos representantes, nunca se mostraram capazes de dar o passo em frente reclamado pelas condições envolventes. O facto de alguns generais terem entrado em rotura com o regime, não põe em causa o comprometimento do corpo militar com a situação.
São estas as circunstâncias em que nasce o Movimento dos Capitães, dadas as condições especiais da importância dos quadros médios no seio das Forças Armadas (e em especial do Exército), face à natureza da guerra colonial em que estavam envolvidas.
Por um lado, os capitães vão adquirindo a capacidade de representar as Forças Armadas e, por outro, constroem uma nova modalidade de intervenção na política.

Convém por isso, caracterizar sucintamente o movimento militar que levou a cabo o 25 de Abril em Portugal, através de alguns fatores que lhe deram consistência e de algumas condições que sustentaram o seu êxito.

Em primeiro lugar, podemos dizer que o movimento que conduziu ao 25 de Abril assumiu as seguintes características:
- Foi um movimento militar amplo, com base no Exército e nos quadros médios, incluindo oficiais da Marinha e da Força Aérea;
- Respondeu a um anseio generalizado, não prevendo por isso oposição popular;
- Assumiu uma componente de natureza política através de um programa democrático;
- Teve, apesar de tudo, consciência da existência de fraturas internas.

Em segundo lugar, a ação militar do 25 de Abril reuniu certas condições, que podem ser assim resumidas:
- Alicerçou-se num sólido plano de operações;
- Isolou o teatro de operações (constituído por todo o território português) e executou uma convergência de forças para a cidade de Lisboa, sede do poder político;
- Usou a rapidez de ação e a surpresa;
- Os principais executantes tinham experiência de guerra.
E para além disto tudo, os participantes tinham uma missão muito clara, constante do plano de operações, como convém a toda a ação militar:

“A missão a atingir com a realização da operação é provocar o derrube do Governo vigente, com o aprisionamento de todos os seus membros e do Presidente da República, com o apoio e a acção activa ou passiva de todas as NF actuantes, tendo em vista pôr imediatamente em execução o programa constante da proclamação a dirigir à Nação logo após o golpe, visando a implantação, a curto prazo, de uma democracia política como forma de governo no País”.

Podemos então dizer que o golpe de Estado do 25 de Abril de 1974, que evoluiu depois para um processo revolucionário, se baseou em algumas ideias invulgares:

- Derrubou uma ditadura;
- Propôs a instauração de um regime democrático, de partidos, com base num programa político;
- Formulou uma solução para o problema colonial através de negociações;
- Propôs um programa de desenvolvimento económico e social de maior justiça.

Em suma, depois da vitória, e através de um Programa pré-elaborado, o golpe de Estado transformou-se numa Revolução, pela vontade e participação do povo de Lisboa, que rapidamente se propagou a todo o país.

No que se refere à questão colonial, o programa dos revolucionários expressou as seguintes linhas de orientação:
a)   A solução deveria ser política e não militar;
b)  Deviam ser criadas condições para um debate nacional;
c)   Era indispensável o lançamento dos fundamentos de uma política que conduzisse à paz.

Mas o programa foi amputado, na noite de 25 para 26 de Abril, da alínea definidora de uma verdadeira solução para a questão colonial, por divergências internas do Movimento, que preconizava um

d)  Claro reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação e adoção acelerada de medidas tendentes à autonomia administrativa e política dos territórios ultramarinos, com efetiva e larga participação das populações autóctones.

Essencialmente por este motivo, os capitães presentes nos territórios coloniais ficaram numa situação de significativa importância política, mas de frágil consistência militar, quando se clarificaram as circunstâncias ao longo do dia 25 de Abril de 1974.
O que se passou então?
Os capitães olharam-se e não puderam deixar de se questionar sobre o que fazer. Estavam vitoriosos, mas a sua capacidade para agir era diminuta.
(Devemos aqui ressalvar a iniciativa dos capitães de Bissau, que ao tomarem o poder recuperaram a alínea excluída do Programa do MFA).
Para todos os outros, a solução para o problema que essencialmente os preocupava, ou seja, o fim da guerra, não ficara claramente definida em Lisboa. Esta situação tendia a reproduzir uma dicotomia no MFA que já emergia na capital. As posições dos elementos do movimento dos capitães, que agora se viam integrados num espaço mais amplo constituído pelo MFA, encontraram terreno propício para divergirem, desde o primeiro dia.
Em segundo lugar, e fruto desta ambiguidade inicial, as posições dos principais membros do movimento, acompanhados por todos aqueles que se integraram ou se aproximaram, multiplicaram-se com base nas diversas interpretações das mensagens divergentes que o novo poder central emitia.
A primeira grande dificuldade foi a de definir um rumo.
E se as divergências eram visíveis entre os aderentes ao MFA, todos aqueles que se demarcavam da nova situação aproveitavam as divergências para se manterem nas suas trincheiras.
Estávamos entre um insuficiente Programa do MFA, cuja surpresa o manifesto de Cascais não deixava adivinhar, e a solene declaração da JSN, referindo Portugal no seu todo pluricontinental!
Estávamos entre uma hierarquia militar e política apenas inquieta pelos protagonistas que emergiam da mudança, mas suficientemente confiante na composição do poder que se desenhava em Lisboa.
Estávamos entre duas realidades persistentes que não se afigurava possível alterar, nem a realidade da guerra ao longo de extensos territórios, nem a incapacidade de os comandos militares assumirem as causas da mudança que os capitães acabavam de provocar, ou seja, o fim da guerra.



sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O BATALHÃO DE INFANTARIA 10 NA GRANDE GUERRA



A quinta e última parte do texto sobre o Batalhão de Caçadores 10 de Bragança e a sua participação na Grande Guerra leva-nos das vésperas do 9 de Abril até ao regresso a Portugal. É um percurso árduo, violento e triste.
Chegado aqui, atrevo-me a sugerir à Câmara Municipal de Bragança (onde não conheço ninguém) a publicação do Relatório do major António José Teixeira, devidamente transcrito, anotado e comentado. Seria uma bela homenagem aos soldados do Nordeste Transmontano que participaram na Grande Guerra.


Parte 5:
Desenho de um gerador de fumos alemão
 incluído no relatório do BI 10,
 desenho do major António José Teixeira, AHM
As palavras do comandante-chefe das forças germânicas, general Paul von Hindenburg, escritas mais tarde nas suas memórias (Out of My Life, London, 1920, p. 352) dão-nos conta das condições propícias que até a meteorologia proporcionou:
No Inverno, a área do vale do rio Lys ficava inundada numa larga extensão, e na Primavera, não passava muitas vezes de um pântano, por semanas a fio - um verdadeiro horror para as tropas que estavam nas trincheiras nesta altura (…).
Era perfeitamente inaceitável pensar na realização de um ataque antes do vale do Lys se tornar transponível. Em circunstâncias normais de clima, só poderíamos esperar que o solo ficasse suficientemente seco, em meados de Abril.
Mas pensei que não seria possível esperar até essa altura para começar o combate decisivo no Ocidente. Tivemos de contar com as perspetivas de intervenção americana.
Não obstante estas objeções ao ataque, tínhamos o plano detalhado, pelo menos teoricamente (…).
Esta hipótese estava assente nos finais de Março. Logo que vimos que o nosso ataque a Ocidente era inevitável, decidimos iniciar as nossas operações na frente do Lys.
Uma pergunta dirigida ao Grupo de Exércitos do Príncipe Herdeiro Rupprecht, trouxe a resposta de que, graças à Primavera seca, o ataque em todo o vale do Lys se tornara viável (…).
Em 9 de Abril, aniversário da grande crise em Arras, as nossas tropas passaram das suas lamacentas trincheiras na frente do Lys para a frente de Armentières a La Bassée.

Entretanto, do lado aliado, já ninguém tinha dúvidas da iminente ofensiva alemã. Contudo, as tropas portuguesas, exaustas pelas condições que temos observado, iam ainda ser submetidas a mais um período de intensos trabalhos, logo que entraram nas linhas. De facto, e segundo o relato que seguimos:
As linhas de Ferme du Bois encontravam-se num estado desgraçado, arrasadas, lamacentas, com as passadiças desfeitas em muitos sítios; os nossos pobres soldados, enterrados no lodo, andavam às apalpadelas, com os postos muito diluídos em relação ao efetivo – era verdadeiramente pavorosa a situação!
Por seu lado, o general Haking, comandante do XI Corpo visita a Divisão Portuguesa no dia 6 de Abril e promete recompletar os efetivos, “declarando a todos que conhecia bem o estado da Divisão que pertencia ao seu Comando”.
No dia seguinte, 7 de Abril, a artilharia aliada desencadeia um largo bombardeamento “a fim de serem batidas todas as comunicações do inimigo, o que estava de harmonia com o desejo de todos, visto os boletins de informações virem acusando um desusado movimento nos arraiais adversos, chegando-se a observar a descarga de 40 ou mais camiões com munições. Preparava-se algum grande acontecimento”.
Mas ainda antes do dia fatal, nova surpresa estava reservada à tropa portuguesa! De facto, como o major António José Teixeira esclarece:
Foi grande a surpresa de todos, quando em 8 a 5ª Brigada recebeu ordem de rendição, devendo o seu comandante combinar, nessa noite, com o comandante duma Brigada da Divisão 55ª, os trabalhos da rendição para o dia seguinte.
A 5ª Brigada estava depauperadíssima, os seus efetivos eram de 104 oficiais e 2949 praças, faltando-lhe, portanto, 64 oficiais e 1543 praças, números muito afastados do efetivo.
Parecia que tudo se conjugava, mercê de uma série de circunstâncias que concentram responsabilidades políticas e militares, de comando e de planeamento, operacionais e pessoais, para que a Divisão Portuguesa tivesse que morrer nas linhas, independentemente da sua condição militar ou das suas capacidades de resistência!
No nosso relato ficou o desabafo do último comandante do BI 10:
Pela noite de 8 tinha-se pois recebido a informação de que Infantaria 10 seria rendida em 9, e é nesta confusão e com as malas preparadas para se sair do sector, que rebentam as primeiras granadas de 38 cm de calibre, a anunciar a grande ofensiva sobre o front português, a dar início à grande batalha do Lys!
Das memórias de Douglas Haig, comandante dos Exércitos britânicos, retiram-se algumas justificações para o desastre que se abateu sobre as tropas portuguesas, mas não ficam claras quaisquer responsabilidades sobre os erros que evidentemente conduziram à situação.
O comandante-chefe justifica assim a ofensiva alemã:  
A preparação do inimigo para uma ofensiva neste sector central tinha sido concluída há algum tempo. O admirável e extenso sistema ferroviário tornou possível, com grande rapidez, a concentração de tropas necessárias para um ataque. As minhas forças neste sector não poderiam ser grandemente reduzidas.
Em consequência destes vários fatores, a maior parte das divisões na linha de frente, e em particular a 40ª, 34ª, 25ª, 19ª e 9ª Divisões, as quais em 9 de Abril estavam na frente, entre o sector Português e o Canal Ypres-Comines, já tinham tomado parte na batalha do Sul. Deve considerar-se que, antes da batalha do norte se iniciar, quarenta e seis das minhas cinquenta e oito divisões, tinham estado empenhadas no sul.
No final de Março, no entanto, a parte norte da frente secou rapidamente sob a influência de uma Primavera muito quente, ficando em condições de sofrer um ataque mais cedo do que seria de esperar. Preparativos para apoiar a Divisão Portuguesa, que tinha estado continuamente em linha por um longo período e precisava descansar, foram feitos durante a primeira semana de Abril, e deveriam ter sido concluídos até à manhã do dia 10 de Abril. Entretanto, outras divisões, que tinham sido empenhadas na luta no Somme e que tinham sido retiradas para descansar e se reorganizarem, foram transferidas para a frente do Lys. (…)
A persistência do bom tempo fora da estação e a secagem rápida do vale do Lys permitiu ao inimigo antecipar o ataque à 2ª Divisão Portuguesa.
Na noite de 9 de Abril, um invulgar bombardeamento pesado e prolongado, também com gás, foi iniciado ao longo de praticamente toda a frente de Armantières a Lens, cerca das 4,0 horas, do dia 9 de Abril. 


Por seu lado, no seu relatório, o último comandante do BI 10 inicia deste modo a descrição da batalha:
A ofensiva de 9 de Abril, no velho campo de batalha de Messines teve lugar entre o canal de La Bassée e Bois Grenier, numa extensão aproximada de 18 quilómetros, sendo mais de 10,5 confiados à guarda dos nossos Lusos, entre Bond Street ao Norte e a Schetland ao Sul, ocupando o Batalhão de Infantaria 10 a frente compreendida entre a Schetland ao Sul e a trincheira Cokspur ao Norte, numa extensão de cerca de 2000 metros.
E quanto ao duelo principal que se travou no início da ofensiva, a desproporção não podia ser maior:
Calculava-se que as oito Divisões que se empenhavam na batalha deveriam ter a auxiliar-lhes a ação 1500 canhões. Nós tínhamos 76 peças de campanha e 16 obuses, com uma escassa artilharia pesada dos ingleses!
O major António José Teixeira descreve em seguida todo o dispositivo das unidades e postos da noite de 8 para 9 de Abril, mencionando o nome de todos os responsáveis, oficiais e sargentos, que se encontravam nas várias linhas e no comando. O Batalhão era comandado pelo major Guilherme Correia de Araújo.
Segue-se, ao longo de muitas páginas, a descrição da Batalha e da evolução da situação durante a noite e manhã do dia 9 de Abril, acabando com a descrição pormenorizada de todas as companhias e dos seus feitos, começando pela 3ª Companhia, colocada na direita do sector, em contacto lateral com a primeira unidade da 55ª Divisão inglesa, passando pela 1ª Companhia, à esquerda, pela 4ª Companhia, em apoio, e terminando na 2ª Companhia, em reserva.
Finalmente, o major António José Teixeira finaliza o seu relatório com uma homenagem a todos os que se bateram e sacrificaram nas condições que ficaram bem claras na sua memória escrita:
O discurso do general britânico Haking, sintetizado na frase para sempre histórica ‘A Divisão portuguesa tem de morrer na B line’ foi bem interpretada pelo heroico Batalhão de Infantaria 10, que, se não morreu totalmente nessa linha, é porque isso não estava escrito no livro do Destino, pois, a coragem e a abnegação, o arrojo e o génio, o heroísmo e o sacrifício dos seus valentes soldados revelaram-se em atos que ninguém pode descrever, mas que se traduzem na pálida e descolorida narração que aqui fica, a que devemos juntar a ideia duma superioridade numérica esmagadora, que chegava em sucessivas avalanches; o envolvimento perfeito e ainda a ação deprimente dum bombardeamento jamais presenciado pelas topas da Grande Guerra…
É assim que se luta e é assim que se morre, vivendo sempre para a Pátria e para a Imortalidade.

E nós, colocados na circunstância de lembrarmos os nossos soldados da Grande Guerra, que nos transmitiram uma lição de vida e de apego aos valores que nos unem, deixamos aqui uma profunda homenagem e declaramos que o seu sacrifício não pode ter sido em vão!
Terminada a batalha, outra tragédia se inicia para os militares portugueses. Naqueles dois dias foram feitos prisioneiros mais de 6500 militares portugueses, 270 oficiais e 6315 sargentos e praças, como rezam as estatísticas. O BI 10 teve 21 oficiais e mais de 300 sargentos e praças prisioneiros de guerra.
Como o major António José Teixeira também foi feito prisioneiro, o seu relato transmite-nos um profundo conhecimento das circunstâncias e dos trabalhos por que passaram os militares portugueses até ao fim da guerra, num texto denso e muito sentido. No final da guerra foram entregues pela Alemanha a Portugal 269 oficiais, 362 sargentos, 689 cabos e 5447 soldados, num total de 6767 militares. Faleceram nos campos alemães 5 oficiais, 13 sargentos e 215 cabos e soldados. Os oficiais portugueses acabaram por chegar ao campo de Breesen, mas as praças foram espalhadas por diversos campos, em muitos dos quais poucos apoios conseguiram ter, ou foram aproveitadas para trabalhos em vários lugares e mesmo próximo da frente. Foi nesta situação que vieram a saber da assinatura do armistício e da cláusula que obrigava a Alemanha a proceder, no prazo de 30 dias, à “evacuação de todos os seus prisioneiros de guerra”.
A alma de cada um vibrava intensamente de alegria, não só por ver alfim tombar o despótico poder kaizeriano, mas também por todos irem em breve contemplar o sol doirado da Liberdade que tanto ambicionavam, e ainda por se pensar que também em breve se pisaria o solo abençoado da Pátria.
E assim termina a história do BI 10 de Bragança elaborada pelo seu último comandante, major António José Teixeira, não sem que ele nos deixe como mensagem final alguns versos de Camões, findando:
Podeis vos embarcar, que tendes vento
E mar tranquilo, para a Pátria amada (Estância 143 do Canto X dos Lusíadas).
Como anexos, encontramos ainda os seguintes quadros, que completam o relatório apresentado:
·        Relações dos oficiais mortos
·        Relação das praças mortas
·        Relação de praças desaparecidas
·        Relação dos militares condecorados com a cruz de guerra
·        Relação de oficiais, sargentos e soldados louvados
·        Relação dos oficiais prisioneiros de 9 de Abril
·        Quadro dos oficiais que fizeram parte dos efetivos do BI 10 na Grande Guerra
·        Quadro dos sargentos que fizeram parte dos efetivos do BI 10 na Grande Guerra
·        Relação do pessoal (sargentos músicos) que fazia parte da banda de música que destacou com o Batalhão para a Flandres
·        Relação dos sargentos artífices que faziam parte do Batalhão.

Ao acompanharmos estas páginas de sofrimento, sacrifício, valentia e desastre, temos todos mais uma oportunidade de nos questionar, não apenas sobre a Grande Guerra em especial, mas naturalmente sobre todas as guerras (sobre as guerras que querem pôr fim a todas as guerras e sobre as guerras que previnem outras guerras); também sobre Portugal e sobre a Europa; ou sobre o Mundo e a mundialização.

Para que não seja em vão o conhecermos o cortejo de dramas que a ela estão inevitavelmente associados. Para que nunca deixemos de ter presente a interrogação decisiva e permanente, perante qualquer toque das trombetas de guerra.


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O BATALHÃO DE INFANTARIA 10 NA GRANDE GUERRA



A parte 4 do texto sobre a presença na Flandres do Batalhão de Infantaria 10 de Bragança, leva-nos desde Janeiro de 1918 até às vésperas do 9 de Abril, batalha em que participou nas linhas da frente.

Parte 4:


Desenho das várias fases da reparação
de uma trincheira incluído
no relatório do BI 10, desenho
do major António José Teixeira, AHM.
Entretanto, nos primeiros dias de Janeiro o comandante do Batalhão, major Correia Soares, entrou de licença e foi substituído pelo major Guilherme Correia de Araújo. Será este que recebe a ordem de as rendições se passarem a fazer de quatro em quatro dias e não de seis em seis como era habitual. A medida, que causava bastantes transtornos pela frequência de mudanças nas trincheiras, justificava-se por parecer médico, “atendendo ao período de invernia que atravessamos e consequentemente ao maior esgotamento que as baixas temperaturas produzem”. De facto, os “clínicos” atribuíam à permanência nas trincheiras “as doenças dos olhos que agora intensamente se manifestavam, causadas pelas reverberações dos campos nevados e pela atenção que a sentinela necessitava ter, de dia e de noite, sobre a terra alva que dia a dia, hora a hora se disputava”.
Como resultava sempre uma clara desvantagem para o atacante em qualquer manobra assente no movimento de tropas, as frentes de combate mantiveram-se quase estáticas ao longo de um grande período, uma vez que as defesas estavam organizadas nas trincheiras e no uso intenso de fogos de metralhadora, morteiros e artilharia. Quando as tropas portuguesas ocuparam o seu sector ainda este impasse continuava e por isso se planeavam, por vezes, operações de bombardeamentos mais intensos, por forma a aliviar a pressão que o inimigo exercia sobre as trincheiras com ações de bombardeamentos dispersos, mas persistentes. Foi o que aconteceu em 18 de Janeiro, na frente da 5ª Brigada, onde se incluía o Batalhão de Infantaria 10. Nesta situação recomendava-se às tropas que, depois do bombardeamento e prevendo uma resposta do inimigo, deveriam fazer o seguinte:
Tendo a experiência demonstrado que há toda a vantagem em que as tropas que guarnecem a 1ª linha saiam para a terra-de-ninguém e se abriguem nas crateras de morteiros, logo que o inimigo faça um bombardeamento intenso (não só porque deste modo ficam fora da zona batida, mas também porque mais facilmente repelirão o inimigo que porventura tente fazer um ataque em seguida ao bombardeamento), recomenda-se a todos os graduados que assim devem proceder, cumprindo-lhes explicar às praças as vantagens da adoção desta medida.
O autor do relatório que estamos seguindo não nos esclarece contudo, se tal medida chegou alguma vez a ser seguida!
O mês de Fevereiro de 1918 passa-se em rendições sucessivas, ora nas primeiras linhas, ora em apoio, ora em reserva, sendo que em nenhumas das situações as tropas tinham qualquer verdadeiro descanso. Quando chega o mês de Março, as atenções voltam-se para o Somme, onde vai desenrolar-se a grande ofensiva alemã, ação que “faz retirar da nossa retaguarda muita artilharia inglesa, que defendia estas paragens”.
As tropas portuguesas estão numa altura crucial. A atividade militar vai intensificar-se na frente ocidental, como consequência da decisão alemã de encontrar sem demora uma saída definitiva para o impasse das trincheiras. Mas é exatamente por esta altura que as tropas portuguesas, sem o apoio que seria normal por parte dos responsáveis, se encontram num período de terrível depauperação física e moral. Sigamos o relato:
É extrema a miséria física em que se encontram os nossos soldados; não há grandes nem pequenos descansos, não há licenças, nem reforços; morre-se e não se é rendido… De Portugal nada chega!
Entre os soldados lavra um intenso descontentamento. Esta vida na Village Line é mais martirizante que a das trincheiras. Dizia-se que isto era um repouso!...
Meses de trincheiras, sem descanso, sob o terrível e inclemente Inverno, e morrendo-se por conta-gotas!... (…)
As intoxicações sucedem-se. Os comandantes de Companhia mantêm as suas unidades, reduzidas dia a dia!... Os seus soldados parecem uma legião de proscritos, miseravelmente abandonados pela Pátria…
Eles ali estão pálidos, exaustos pela falta de descanso durante o dia e de tranquilidade durante a noite; os pulmões envenenados pelos gases, sem esperança de serem rendidos e sem apoio moral das instâncias superiores.
Raro é o dia em que não surge mais um com os pulmões corroídos pelos malditos gases!
Neste terrível mês de Março a situação era de tal forma preocupante, que o alferes Abel Estima, que comandava a 4ª Companhia, informava o comando do Batalhão do seguinte:
Após o bombardeamento de gás desta manhã, que durou seis horas consecutivas, em que todos mais ou menos apanhámos gás, a minha Companhia ficou reduzida ao seguinte (…): 1º pelotão, 15 soldados e um 1º sargento; 2º pelotão, 21 soldados e dois sargentos; 3º pelotão, 22 soldados e três sargentos. Destes, uma grande parte piora de tarde, e amanhã, naturalmente, não se aguentam.
Como hei de constituir as forças que hão de ficar?
E se amanhã, como é provável, tudo tiver piorado?
Quem são os oficiais que ficam?
O comando de Companhia retira?
Aguardo instruções de V.Exª.
Estas as terríveis perguntas que os comandos subordinados faziam, e a que os comandos superiores não sabiam responder. Por isso, o major António José Teixeira, que escreve este relatório depois da guerra, esclarece: “Estava escrito que jamais chegaria o decantado roulement, e que o C.E.P. era coisa para se gastar!...”.
Entretanto, a situação conheceu um novo rumo.
Gomes da Costa, que assumira o comando da 2ª Divisão em 20 de Março, visita as unidades dos vários sectores e refere o aumento de atividade do inimigo, mostrando “claramente a possibilidade de uma ofensiva, atendendo aos movimentos observados na zona de retaguarda do inimigo, à atividade da aeroplanagem e aos repetidos reconhecimentos de patrulhas”.
O comandante da 2ª Divisão não deixa de acentuar o estado das tropas e a necessidade urgente da sua completa substituição. Lembra que a Divisão Portuguesa em primeira linha tinha conhecido, no período de Dezembro a Abril, três Divisões diferentes à direita e quatro à sua esquerda, rendidas sucessivamente. E acrescentava:
Com um cansaço impossível de descrever; com o moral esmagado pelo espírito de sacrifício, verdadeiramente aniquilado pela tristeza que causava o saber-se que oficiais que tenham partido de licença haviam ficado anichados na Guarda Republicana, nos corpos pretorianos ou nas comissões de serviço!...
Mas que condições!
Embora a 5ª Brigada fosse a que menos dias tinha de primeiras linhas (cerca de três meses), uma vez que fora a última a assumir a responsabilidade de um sector, a verdade é que esse tempo coincidira com o Inverno rigoroso, o que depauperara os homens até um extremo limite.
Sabendo-se das intenções do inimigo, que estaria a preparar um ataque de grandes dimensões, o comando inglês fez algumas alterações significativas. Em primeiro lugar, manteve na frente apenas a 2ª Divisão, que passou ao comando do XI Corpo inglês, general Haking (1), deixando o C.E.P. de ter responsabilidade operacional a partir de 6 de Abril; em segundo lugar planeou a rendição da 2ª Divisão, primeiramente para o próprio dia 6 de Abril e depois para os dias 9 a 11 de Abril. Entretanto, a 2ª Divisão ocupou as primeiras linhas, com as 5ª, 6ª e 4ª Brigadas respetivamente nos sectores de Ferme du Bois, Neuve Chapelle e Fauquissart. O BI 10, pertencendo à 5ª Brigada, ocupou o subsector mais à direita de Ferme du Bois, ficando em contacto com o Batalhão mais à esquerda da 55ª Divisão britânica.
Prevendo-se a aproximação de uma situação muito difícil, de que já ninguém tinha dúvidas, o general Costa Gomes faz ainda um último alerta:
O C.E.P. tem tido a seu cargo um sector, para o qual dispunha de seis Brigadas, sabendo todos quanto, devido à escassez de efetivos, à falta de quadros e ainda, ultimamente, devido a uma certa fadiga e depressão moral, esta defesa se estava tornando precária.
Acabando de receber ordem para guarnecer o mesmo sector, apenas com quatro Brigadas, de efetivos depauperados, e com falta de 139 oficiais e de 5792 praças, acato a ordem recebida, mas não posso deixar de declinar toda a responsabilidade do que venha a acontecer.
O major António José Teixeira dá-nos conta da situação que se vivia:
A desmoralização que havia atingido outras unidades tinha crescido pavorosamente. Infantaria 7 havia-se revoltado, recusando-se firmemente a entrar nas linhas, justamente no dia 4 de Abril.
Foi esta revolta que provocou a retirada da frente da 2ª Brigada e obrigou toda a 5ª BI a fazer uma rendição precipitada e sem um metódico reconhecimento do novo sector que lhe destinavam.
Esperava-se, e era lógico, que o Batalhão do 10 fosse transportado em camiões até L’Epinett, dada a urgência, porque tinha de realizar a ocupação, e ainda mais lógico pareceu o facto, quando se soube que as forças que ocupavam o sector de Ferme du Bois retiravam em camiões.
Mas Infantaria 10 estava condenada a fazer (a pé) este terrível percurso, através dessas estradas lamacentas, encharcadas, e por uma noite escuríssima (…)
Houve grande descontentamento entre as praças. Houve mesmo ligeiros episódios que esboçaram evidentemente, talvez pela primeira vez, má vontade com que executavam uma ordem dimanada dos seus superiores. Mas a energia dos oficiais, a decidida boa vontade e o prestígio de muitos, (…) fizeram com que nesta unidade não se acentuasse o mais pequeno gesto de repulsa por uma ordem que a todos deixava visivelmente contrariados, por lhes parecer pesada e pelas circunstâncias de que se estava rodeando o moral de todos.
E remata assim o relator:
Depois duma marcha fatigante e penosa, deu entrada o Batalhão nas linhas, às cinco horas, podendo ouvir o capitão Luís Emílio Ramires (2) da boca de um seu camarada que ia ser rendido, uma frase que denotava a disciplina, a ordem e o espírito de sacrifício do soldado do Nordeste de Trás-os-Montes:
- Muito bons soldados têm vocês!...
Nada aliviava o sofrimento dos soldados portugueses. Todas as condições pareciam conjugar-se para tornar cada vez mais difícil a sua participação neste longínquo e excessivo esforço de conter os planos alemães.

……
1 Richard Haking (1862-1945), general britânico, comandante do XI Corpo de Exército na Grande Guerra. Em 1914 comandou a 5ª Brigada de Infantaria na Batalha de Mons, e a 1ª Divisão na Batalha de Aubers Ridge ou Batalha de Fromelles. A partir de Setembro de 1915 passou a comandar o XI Corpo, comando que manteve até ao final da Guerra. Nunca ficou completamente esclarecido o plano de rendição da 2ª Divisão Portuguesa, exatamente para 9 de Abril, dia da ofensiva alemã (operação Georgette).
2 Luís Emílio Ramires (1882-1961), coronel, nasceu no Porto. Fez parte do C.E.P., embarcando em Lisboa a 7 de Agosto de 1917. Tomou parte na Batalha de La Lys, sendo feito prisioneiro. Regressou a Portugal em Fevereiro de 1919. Em 1932 comandou o Batalhão de Metralhadoras 2.