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segunda-feira, 5 de abril de 2021

 

ALCORA, UM SILÊNCIO DA GUERRA COLONIAL


No passado dia 27 de março participei no colóquio "Guerra Colonial - Memórias silenciadas" organizado, entre outros, pelo Centro de Estados Sociais da Universidade de Coimbra (CES/UC). O colóquio pretendia abordar e debater memórias que de algum modo andam silenciadas, tanto pelos organismos oficiais como pelos próprios protagonistas, no sentido de melhor se compreender a longa duração da guerra e o seu contributo para o 25 de Abril de 1974. No Portugal democrático faz cada vez menos sentido que se mantenham sombras persistentes sobre o tempo da Guerra Colonial.

A minha comunicação foi a seguinte:


Alcora, um silêncio da Guerra Colonial

 1.     O Exercício Alcora

Em 1961, faz agora 60 anos, Salazar optou pela guerra nos territórios coloniais africanos porque o seu regime não estava preparado para iniciar um processo longo e controverso de conversações com os nascentes movimentos de libertação.

Os fundamentos ideológicos do Estado Novo incluíam, desde a década de 30, o pilar do império colonial como essência da nação portuguesa, assente na sua dimensão pluricontinental e multirracial.

O mito dessa natureza intrínseca condicionou o pensamento da sociedade portuguesa, submetida à propaganda longa e persistente da ditadura.

Excluindo alguns movimentos resistentes, que viviam no estrangeiro ou na clandestinidade (e mesmo assim em formulações muito tardias), ninguém foi capaz de propor, com consistência, uma solução para o problema colonial.

Só em 1961, quando a questão da libertação colonial passara já ao terreno, é que se manifestou uma opção, dentro do regime, de questionamento da política de Salazar.

O chamado golpe Botelho Moniz, fomentado pela nova política americana da administração Kennedy, destinava-se a derrubar Salazar e a colocar em cima da mesa uma nova política colonial de autodeterminação.

Salazar conhecia os meandros da conspiração e preferiu opor-se a esse movimento para salvar o regime e o seu poder, do que socorrer as populações (brancas e negras) do Norte de Angola (cujos iminentes perigos bem conhecia), vindo a aproveitar-se, com deliberada insídia, dos massacres levados a cabo pela UPA sobre essas populações para uma intensa campanha de propaganda contra os movimentos de libertação e a favor da solução portuguesa de continuação da sua política colonial.

Uma vez iniciada, a guerra colonial só poderia terminar com o fim do regime.

Os capitães reconheceram esta realidade a partir de 1973, quando já iam passados 12 anos de empenhamento militar, ainda assim numa ação autónoma e com escassos contributos externos.

Desde 1960 e até ao seu fim, o regime do Estado Novo, primeiro com Salazar e depois com Marcelo Caetano, viu-se obrigado a canalizar toda a sua atenção para a guerra, assim como grande parte dos recursos humanos, materiais e financeiros do país. Mas os recursos de Portugal eram muito limitados e responder às ações da guerrilha nacionalista em três imensos territórios afigurava-se como tarefa excessiva.

Ainda por cima, o regime português estava isolado no concerto das nações e era objeto de sanções, restrições comerciais e contestação política, tanto no seio das Nações Unidas, como da maior parte dos países, mesmo dos mais importantes aliados integrantes da NATO.

Valendo-se do ambiente internacional da Guerra Fria, das hesitações geoestratégicas das grandes potências e das organizações militares, navegando à vista por entre a situação de conflito global latente, o regime português foi encontrando apoios e suportes para o seu esforço militar, muitas vezes de forma disfarçada ou mesmo encoberta.

Foi neste ambiente que se desenvolveram as relações entre Portugal e o regime de apartheid da África do Sul durante quase todo o período da guerra colonial.

Não cabendo aqui aprofundar o percurso dessas relações, mas apenas falar da sua fase final, será de destacar que os grandes projetos levados a efeitos em Angola e Moçambique tiveram sempre, como importantes parceiros, os interesses da África do Sul, como foram o plano do Cunene em Angola e a construção da barragem de Cabora Bassa em Moçambique.

Ao focarmos a nossa atenção no Exercício Alcora, não podemos dissociá-lo dos interesses de Portugal, enquanto potência colonial de fracos recursos e constante enfraquecimento das suas capacidades, e do conceito estratégico do regime sul-africano de manutenção do regime de supremacia branca na África Austral.

O regime português, depois da morte política de Salazar, em 1968, confrontou-se com a sua própria desagregação, minado por divergências, fações e lutas pelo poder que foram enfraquecendo a sua unidade, mesmo perante a questão chave da sua sobrevivência, a solução para a guerra colonial.

Acentuando esta luta interna, a guerra caminhou com alguma rapidez para um estreitamento de soluções, em especial pelo desenvolvimento da luta armada dos movimentos de libertação, que se aperfeiçoava e subia constantemente de patamar (em especial na Guiné e em Moçambique), mas também pelo crescente empenho das Nações Unidas que extremavam em contínuo a veemência das suas resoluções.   

É neste contexto que se situa o “Exercício Alcora”. Confluindo na evidência de um necessário apoio militar da África do Sul às operações das forças portuguesas, em especial no Sul e Sueste de Angola e na região de Tete em Moçambique (onde se construía Cabora Bassa), Portugal e a África do Sul traçam as bases de um acordo militar e de uma aliança política para a defesa de uma África Austral de supremacia branca.

Este plano é apoiado por uma importante fação do sistema político-militar português e pelo governo sul-africano.

A África do Sul implementava assim a sua estratégia de defesa, com o alargamento em profundidade das suas fronteiras de segurança aos territórios de Angola, Moçambique e também da Rodésia (trazida por si ao acordo tripartido).

O poder económico e militar da África do Sul parecia conceder às autoridades portuguesas um conforto material suficiente para o prolongamento de uma situação cujo desenlace, mais tarde ou mais cedo, era considerado inevitável mesmo pelos protagonistas desta solução.

Mas havia, subjacente ao acordo, uma contradição impossível de contornar.

Portugal afirmava-se como um país multirracial e a África do Sul era oficialmente um país de desenvolvimento separado, um país de apartheid.

É neste imbróglio doutrinário que assenta o secretismo da aliança.

Portugal não estava preparado para publicitar a aliança e a África do Sul queria afirmá-la perante o mundo.

Tudo o que envolvia esta aliança era tratado como se fosse segredo de Estado, e classificado como “Muito Secreto”.

Ao iniciar-se o ano de 1974, as tensões entre os dois parceiros em relação à publicitação da aliança atingiram um ponto de não retorno.

Da constatação desta impossibilidade, estavam a desenhar-se soluções espúrias, que ninguém sabia muito bem como poderiam acabar.

Assim, em relação à Guiné (que aliás já era um país independente, ilegalmente ocupado por Portugal) o governo português admitia a retração do dispositivo militar para a zona de Bissau e a preparação futura de uma saída das forças portuguesas, se as conversações que procurou entabular com o PAIGC não produzissem (como não produziram) resultados positivos.

Em relação a Moçambique a questão permanecia obscura, mantendo-se sempre a possibilidade de retomar os esforços de Jorge Jardim para uma difícil solução acordada com a Frelimo através do governo de Lusaca.

Em relação a Angola, a solução passava por uma independência branca, fomentada por Lisboa e apoiada pela África do Sul, sem que seja claro, ainda hoje, como iria ser justificado o processo perante a comunidade internacional e mesmo perante as forças armadas portuguesas (que em grande parte desconheciam em absoluto o que se preparava).

O longo conflito armado estava às portas de um absurdo, tanto no processo de independência fabricado por altas figuras do Estado português, como nas reações dos movimentos de libertação, das populações negras e da comunidade branca, assim como das forças militares portuguesas. E mesmo de outras fações dentro do regime.

 A ação do MFA em 25 de Abril de 1974 pôs fim, não só ao projeto, como ao próprio regime.

 O que se infere hoje, como resultado de um conjunto de investigações sobre o assunto, é que só a conjugação da intransigência inerente à política colonial do regime e o desespero da situação militar deu origem à aceitação de absurdas soluções de uma questão muito maior que os protagonistas da aliança secreta.

 

2.     Uma notável investigação recente

Existe hoje uma notável investigação e estudo da História de África, em várias partes do mundo. O destaque é devido aos jovens (e outros menos jovens) historiadores, incluindo muitos africanos, sem enfeudamentos às narrativas heroicas.

Estudos recentes sobre a colonização e a descolonização, que nos fornecem instrumentos para nos situarmos perante as polémicas e os oportunismos, estão também em curso, vencendo ocultações, com serenidade, com enquadramento, com contexto e com verdade.

A pertinência de um olhar historiográfico abrangente, na procura de um equilíbrio em relação à extensa literatura colonial anterior, em que os temas antes na penumbra e esquecimento se tornam obrigatórios, como a violência, a discriminação, o racismo, a ausência, o domínio, a exclusão, não pode, ainda assim, excluir as influências mútuas, as lutas comuns, a construção de relações de cooperação e a visão de um mundo novo, emergente do fim dos impérios.

É consolador verificar que entre nós se têm desenvolvido projetos, estudos, programas, em especial no âmbito universitário, que refletem esse esforço de conhecimento do mundo africano e das suas relações históricas e atuais.

O mesmo se pode dizer sobre o período da guerra colonial / guerras da independência, revistas sob os mais variados aspetos, um dos quais se fixa precisamente nas memórias silenciadas, nas geografias imaginadas e nas alianças secretas.

Temos assistido à construção de uma ideia sobre a ausência de estudos sérios, da fuga ao tema, da inexistência de investigação e do desinteresse sobre um período fundamental para a compreensão da nossa história comum, de Portugal e dos novos países. Ora nada disso me parece verdadeiro.

Primeiro, existe um largo e crescente interesse da universidade pelos temas africanos e pelas relações coloniais e em especial pelo período final da libertação, incluindo, portanto, a guerra colonial, o processo de transição para as independências e a transferência de soberanias.

Editam-se e publicam-se obras, memórias, estudos, literatura, a um ritmo assinalável sobre temas relacionados com este período fulcral do pós-2ª Guerra Mundial até ao período de pós-independências.

Tem-se consolidado, nas redes sociais, um imenso manancial de informação e de participação de inúmeros testemunhos, bem difícil de acompanhar.

Estão abertos os arquivos portugueses (e também dos novos países), dentro das suas limitações orgânicas, com poucas restrições ou nenhumas.

Existem projetos de recolha de memórias pessoais, de audição de protagonistas, de entrevistas coletivas, de recuperação de testemunhos.

Fazem-se inúmeros colóquios, seminários, congressos, teses de mestrado e doutoramento sobre este período recente da História Contemporânea, com múltiplas abordagens, tanto na perspetiva colonial, como da luta pela autonomia e independência, como também das relações do colonialismo.

Em contrapartida, há ainda muitas matérias por abordar, muitos estudos por fazer, muitas explicações para formular, muitas atitudes para compreender.

São estas incertezas que nos trazem a este encontro, onde procuramos explicar melhor os silêncios que resistem e os assuntos que teimam em permanecer na sombra.

 

3.     Silêncios e encobrimentos

O 25 de Abril de 1974 traçou uma fronteira entre a anterior prática colonial e a mudança para um novo destino do mundo colonizado. Mas, em rigor, as sobrevivências foram inevitáveis e as continuidades conceptuais mantiveram-se resistentes.

A forma como os protagonistas encaram o mundo não é fácil de alterar, e nem as roturas profundas conseguem impedir a continuidade das mentalidades e das correntes de pensamento anteriores.

Cabe-nos a nós, como historiadores e outros estudiosos das sociedades investigar, interpretar e explicar os fenómenos e os acontecimentos que geraram as comunidades que somos hoje, assim como combater as falsidades, as ocultações e mesmo os esquecimentos que continuam ativos. Tudo, segundo julgo, com a persistência e a serenidade que os nossos contemporâneos nos merecem e nos exigem.

 

Muito obrigado.

 

27-03-2021


sábado, 8 de abril de 2017

FOI O ESTADO NOVO TRAÍDO, EM ÁFRICA?



Em 2009, participei num colóquio do Instituto de Defesa Nacional, onde apresentei uma comunicação com o título “Guerra Colonial – Uma Aliança Escondida”. O assunto respeitava ao acordo “Alcora” que foi assinado em 1970 entre Portugal, a África do Sul e a Rodésia. Mais tarde, eu e o Carlos de Matos Gomes publicámos um livro onde desenvolvemos o tema e que se chama “Alcora, o Acordo Secreto do Colonialismo”. Esta foi a primeira vez que um público mais exigente ouviu falar de tal acordo e alguns dos assistentes tiveram dificuldade em aceitar a realidade. Mas nós já tínhamos falado no assunto num colóquio em Faro em 2008, aí sim a primeira vez que o assunto foi tratado em público.
Depois a investigação seguiu o seu curso e hoje é assunto bastante debatido, embora deixe ainda perplexos muitos dos que tomam contato com esta face do regime português.
O texto foi depois publicado na revista “Nação e Defesa” e fica aqui com um novo título.


Capa da 2ª edição do livro "Alcora, o Acordo
 Secreto do Colonialismo", 2016. 

1. Na primeira fase da guerra colonial, o regime português estava convencido que seria capaz de encontrar uma solução para a agitação interna de Angola e de construir uma via capaz de extinguir o problema. Portugal era um país colonial experiente e, de uma forma geral, sempre encontrara soluções, mesmo quando foi necessário mudar.

Para o regime, os acontecimentos de Angola eram mais uma expressão da influência externa, vinda do Congo, e fomentada pelo comunismo, do que uma vontade saída das elites negras angolanas, que o regime bem sabia serem praticamente inexistentes.

A equipa que foi nomeada, com Venâncio Deslandes para Angola, Sarmento Rodrigues para Moçambique, e Adriano Moreira para o Ministério do Ultramar é um sinal inequívoco de uma estratégia que parece pensada e adequada à situação, tanto quanto isso é possível num regime de compromissos permanentes, embora no âmbito exclusivo dos seus apoiantes. Estes três homens eram conhecedores, moderadamente autonomistas, com um pensamento de alguma coerência entre si. O regime parecia apostado em encontrar uma solução, dentro do quadro da sua política ultramarina e dos limites ditados pelo regime: autonomia controlada, prevalência do poder português (branco se quisermos), salvaguarda dos interesses das grandes empresas portuguesas (muita vezes contraditório com os interesses da comunidade branca em geral).

Embarque de tropas em Lisboa para Angola, 1961 (TT).
Mas houve dois factos que não tinham sido considerados na análise: a raiz dos movimentos autonomistas, que se filiavam na mudança do mundo dependente (incluindo a guerra revolucionária) e a falta de cultura internacional das elites brancas das colónias (que imaginavam a perenidade do seu estatuto).

Este equívoco durou dois anos. Em 1963 estava por terra. Depois disso nunca mais o regime conseguiu conceber ou admitir uma doutrina coerente e um plano adaptado à realidade, mesmo sob o seu ponto de vista. A política ultramarina do regime transformou-se num jogo de equívocos.

E como, apesar de tudo, as políticas são assumidas por pessoas e dependem, em grande parte, do seu próprio pensamento, do seu empenho e tantas vezes do seu carisma, a condução da guerra (das guerras) teve mais a ver com as personalidades do que com o regime. Mas nunca devemos exagerar a autonomia das personalidades em relação à natureza do regime. Nenhum dos comandantes dos teatros de operações que se seguiram se manifestou contrário ou sequer crítico do sistema político (e muito menos o fizeram os representantes da administração colonial).

De alguma forma é necessário esperarmos vários anos para termos três comandantes-chefes com três soluções para a guerra – Spínola na Guiné, Kaúlza de Arriaga em Moçambique e Costa Gomes em Angola. São três soluções muito diferentes. Mas, na conjugação das suas estratégias com a intervenção do poder de Lisboa (já assumido por Marcelo Caetano), nenhuma constituiu uma solução para o problema colonial. A solução de Spínola, ousada para os limites do regime, acabou recusada por Marcelo Caetano; a solução de Kaúlza de Arriaga demonstrou ser nula do ponto de vista político e desastrosa do ponto de vista militar; a solução de Costa Gomes, conseguindo inegáveis êxitos militares, deixou de fora a questão essencial da solução política.


2. Esta situação também tem a ver com as relações entre as Forças Armadas e o regime. Não é necessário alongar este tema para compreender o papel das Forças Armadas numa ditadura. Elas são sempre um suporte essencial do poder. Os conflitos no interior das Forças Armadas, ou destas com outros elementos do sistema, são conjunturais e traduzem-se em lutas de facções que não se empenham em levar longe demais os seus posicionamentos. Fazê-lo, configuraria o questionamento do regime.

No caso português, as Forças Armadas foram fiel instrumento da política do Estado Novo. A oposição à transformação interna do regime e à reformulação da sua política colonial foi sistematicamente participada pelas Forças Armadas, tanto em termos de definição de princípios e alternativas, como na sua execução. Não quer isto dizer que não tenha havido oposições individuais, desconforto e crítica interna, mas nunca chegou a configurar-se a unidade militar suficiente para inflectir a atitude de apoio ao regime.

Movimentos significativos de oposição ao regime só aconteceram com a tentativa de golpe militar de Botelho Moniz em 1961 e, claro, com o movimento dos capitães, a partir de 1973.


3. E se internamente não seria de esperar uma consistente alternativa gerada na sociedade ou no seio das forças armadas, talvez se pudesse esperar que a comunidade internacional tivesse sido mais firme com a ditadura portuguesa, em especial depois do início da guerra colonial ou, ao menos, depois da sua opção pela resistência a todo o custo.

Nas relações do regime português com o mundo, no período da guerra, podemos considerar que, de uma forma geral, a grande maioria dos países foram extremamente hostis ao regime português. E que, dentro deste mundo hostil, se situaram os países do bloco socialista, os países do Terceiro Mundo (afro-asiáticos) e os países nórdicos.

Mas houve também, como suporte da sobrevivência do regime, os países que podemos considerar indulgentes (e também colaborantes), como a Alemanha, a França, a Inglaterra, outros países europeus e os Estados Unidos.

Dean Rusk, secretário de estado americano em Lisboa (TT).

Apesar disso, os Estados Unidos ocupam um lugar à parte, nas suas relações com Portugal, pelos múltiplos compromissos resultantes da sua condição de super-potência. Pelo que devemos distinguir vários períodos que, tendo a ver com as sucessivas administrações de Kennedy, Johnson e Nixon, nem sempre corresponderam exactamente a esta lógica.

Mas, para além dos países hostis e indulgentes/colaborantes, devemos considerar os chamados países “irmãos”, como a Espanha e o Brasil (este depois de 1964), inegáveis suportes morais e materiais da sua política colonial, apesar das diferentes opções de cada um.

Finalmente, do que gostaríamos de falar era de dois países que a linguagem local designava por “primos” – a África do Sul e a Rodésia.


4. Vamos partir de um princípio. O regime português tinha uma doutrina oficial em relação às suas colónias – Portugal era um país pluricontinental e multirracial. A África do Sul, sem rebuço, assumia a sua política oficial do chamado “desenvolvimento separado”, na verdade, traduzido no “apartheid” e na supremacia da raça branca. A Rodésia, depois da proclamação unilateral da Independência em 11 de Novembro de 1965 (UDI) tornara-se um país pária em relação à comunidade internacional, não chegando a ser reconhecido por nenhum outro país. Nem Portugal se atreveu a tanto.

Ora estes três países conceberam e assinaram uma Aliança política e sobretudo militar, a que eufemisticamente chamaram “Exercício Alcora”.

Tudo o que vamos abordar é extremamente surpreendente, como o foi para nós, quando consultámos a documentação sobre esta íntima relação.

Um primeiro aviso – todos os contactos e documentos Alcora foram classificados de “Muito Secreto” ou “Top Secret”, e todos sabemos quais os procedimentos relativos a este nível de segurança. Em princípio só participavam pessoas devidamente seleccionadas, que ficavam impedidas de referir qualquer envolvimento. Chega a ser espantoso como a maior parte dos militares nunca se apercebeu da natureza dessas relações; e é intrigante tentar perceber como os comandos portugueses iam dar a conhecer ao mundo, ao país e às Forças Armadas, a sua opção pela aliança com os países vizinhos (foram os representantes portugueses que sempre recusaram baixar o nível de segurança destas relações).

A participação de meios e forças sul-africanas e rodesianas em operações em Angola e Moçambique eram tidas como informais, de ajuda eventual, em situações que também interessavam à defesa destes países.

Tudo começou com uma longa carta de Salazar a Verwoerd, primeiro-ministro sul-africano, em Agosto de 1963: “Nós estamos quase sós em África a defender a civilização do ocidente; a guerra está longe das vossas fronteiras se Portugal puder resistir; há interesse ocidental e sul-africano em que tal hipótese se não verifique; todas as formas de cooperação com Portugal são muito úteis à nossa resistência e à vossa defesa própria”.

Quais foram os antecedentes, destas relações? Em primeiro lugar, o apartheid. O apartheid foi estabelecido em 1948, como desenvolvimento separado de raças, pertencendo a União Sul-Africana à Commonwealth; é por isso que a Inglaterra assume a responsabilidade de alterar o regime de apartheid; o massacre de Sharpeville, em Março de 1960, representa um endurecimento do regime sul-africano, mas também o crescimento da condenação internacional; Macmillan critica duramente a posição sul-africana na cidade do Cabo em Outubro de 1960 (discurso dos ventos da mudança, ou ventos da História); o referendo sobre o corte com a monarquia e a declaração da república, em 5 de Outubro de 1960, consegue uma vitória de 52%; em consequência, concretiza-se a saída da Commonwealth e a declaração da República, em 31 de Maio de 1961; em 6 de Novembro de 1962, a ONU condena o regime sul-africano; no ano seguinte, em 7 de Agosto, a ONU decreta o embargo de armas à República da África do Sul.

A carta de Salazar surge num oportuno momento, quando se completam várias medidas de isolamento do regime sul-africano, exactamente em finais de Agosto de 1963. Em consequência destas relações, Portugal e a África do Sul, assinam, em Outubro de 1964, os primeiros acordos - Emprego de trabalhadores de Moçambique nas minas da África do Sul e acordo sobre o rio Cunene.

Entretanto, a 11 de Novembro de 1965, os colonos ingleses proclamam a independência unilateral da Rodésia. A declaração unilateral de independência da Rodésia teve um impacto decisivo na evolução da situação política e militar em Moçambique durante toda a guerra, mas, além de condicionar a situação militar, em particular na zona de Tete, a instauração de um regime de minoria branca na Rodésia ao lado do regime de apartheid da Africa do Sul, conduziu a uma aliança de interesses com Portugal. Estes acontecimentos desembocaram, em Dezembro de 1965, no embargo internacional ao comércio com a Rodésia, em que o bloqueio do porto da Beira não passou de uma comédia de enganos… Salazar manifestou à Rodésia e aos seus dirigentes o seu apoio.

Cidade do Luso, cerca de 1970, uma das bases "Alcora".

5. Nesta época, a política de defesa da África do Sul assentava nos seguintes princípios:
·        Criação de uma capacidade autónoma de defesa;
·        Programa nuclear;
·        Política de alianças regionais e com outros regimes ou Estados vizinhos.

A partir de Março de 1967 passaram a efectuar-se reuniões regulares entre delegações de Portugal e da África do Sul, com vista à construção de Cabora Bassa.

Em Setembro de 1967 o general Câmara Pina, chefe do Estado-Maior do Exército, mais uma vez em momento oportuno, apresenta às autoridades militares da África do Sul um memorando sobre as necessidades de Portugal: viaturas blindadas, viaturas de transporte, granadas, minas, postos de rádio e medicamentos.

Em Abril de 1968 foi dado um passo essencial para as relações militares de Angola com o ministério da Defesa da África do Sul – a criação dos Centros Conjuntos de Apoio Aéreo entre as forças portuguesas de Angola e as forças sul-africanas.

No início da guerra, os regimes brancos da África do Sul e da Rodésia prestaram um apoio limitado às forças portuguesas. Esse apoio foi aumentando à medida que estes dois regimes começaram a verificar a incapacidade de Portugal de controlar a situação. Estavam preocupados com o seu futuro no caso de uma derrota de Portugal e a partir de 1968 intensificaram os seus apoios, fornecendo material e até unidades de combate. Em 1968, os sul-africanos começaram por fornecer helicópteros Alouette III para serem operados por pilotos portugueses, mas esse apoio evoluiu rapidamente para o fornecimento de tripulações e finalmente foram destacadas companhias das Forças de Defesa da África do Sul (SADF). Estas unidades terrestres e aéreas operavam em conjunto com forças portuguesas, a partir das bases de Cuíto-Canavale e Gago Coutinho, onde foram criados Comandos Conjuntos de Apoio Aéreo (CCAA), em Abril de 1968.

O conjunto de acções de apoio da África do Sul, efectuadas entre 1968 e 1970 foi chamada Operação Bombaim e viria a ser apresentada em 1970, como justificação da necessidade de alterar os pressupostos das relações militares entre Portugal e a África do Sul.

Entretanto, em 10 de Julho de 1968 foi efectuada a adjudicação provisória pelo Governo português da barragem de Cahora Bassa, em Moçambique, ao consórcio ZAMCO, liderado pela África do Sul. Esta foi a última importante decisão sob a presidência de Salazar.

Como primeiro acto concreto de relevância do governo de Marcelo Caetano, devemos assinalar a assinatura de um novo acordo entre Portugal e a África do Sul para aproveitamento dos recursos hídricos da bacia do Cunene, em 21 de Janeiro de 1969. Este acordo foi assinado na sequência do anterior acordo de 1964 e, em termos técnicos, resultava da evolução nos estudos de desenvolvimento do projecto entretanto realizados. Em termos políticos este novo acordo representava o estreitamento das relações entre Portugal e a África do Sul, as quais passavam por estes grandes empreendimentos hidroeléctricos, do Cunene e de Cahora Bassa.

E logo em 23 de Março do mesmo ano visitaram Lisboa o ministro da Defesa da África do Sul, P. Botha, e o comandante das Forças Armadas, general Fraser. Os dois dirigentes sul-africanos chegaram a Lisboa para uma visita de três dias, vindos de França, onde tinham assistido ao lançamento à água de três submarinos destinados à RAS. Era a primeira visita de altos dirigentes da África do Sul a Portugal depois da tomada de posse de Marcelo Caetano e a retribuição da visita de Sá Viana Rebelo a Pretória. A África do Sul desejava conhecer as intenções do homem que substituíra Salazar.

Guerrilheiros do MPLA no Leste de Angola.

Durante o governo de Marcelo Caetano a evolução da situação militar em Angola e, principalmente, em Moçambique forçou o estreitamento das relações de Portugal com a África do Sul, especialmente no campo militar e dos serviços secretos. No entanto, a publicitação da existência de um eixo branco funcional Lisboa-Pretória-Salisbúria, como pretendia a África do Sul, esbarrou sempre no prurido português de se identificar publicamente com os dois regimes segregacionistas.

De forma mais clara efectuou-se, em 19 de Setembro de 1969, a assinatura do contrato de construção da barragem de Cahora-Bassa com o consórcio ZANCO, formado por empresas portuguesas, sul-africanas, alemãs, francesas e suíças, a que se juntaram interesses ingleses e americanos.

Mas foi em 1970 que a natureza das relações entre Portugal e a África do Sul iniciará uma profunda transformação, depois de uma reunião de alto nível em Pretória, entre delegações dos dois países, efectuada em 4 de Março, para um ponto de situação das relações militares entre ambos, focando em especial os territórios de Angola e de Moçambique.

A delegação da África do Sul era chefiada pelo comandante das Forças de Combate Conjuntas, tenente-general C. A. Fraser, que mantinha relações muito estreitas com as autoridades militares portuguesas, quer em Portugal, quer em Angola e Moçambique. Neste encontro, a África do Sul fez um longo ponto de situação das relações com as forças armadas portuguesas, em especial no sul e sueste de Angola, bem assim como apresentou uma perspectiva de colaboração futura.

Em primeiro lugar, foi feito pela África do Sul um balanço das relações mantidas com Angola depois de 1968, através da “Operação Bombaim”, especialmente traduzida no apoio aéreo à acção das forças portuguesas no terreno. Como afirmava o representante sul-africano, “A Força Aérea Sul-Africana tem estado a apoiar os Portugueses, no Este e Sudeste de Angola, em apoio directo e indirecto, desde Junho de 1968”.

De acordo com o quadro dos apoios concedidos, tal empenho cifrava-se em cerca de 7000 horas em apoio directo e 500 horas de apoio indirecto. A que se deveria acrescentar a manutenção de uma média de 18 oficiais e de 54 outras patentes em apoio à operação só da Força Aérea, para além de outros 150 homens que asseguravam o apoio de retaguarda.

Os resultados de tão profundo empenhamento não poderiam considerar-se brilhantes, pelo que se impunha uma revisão geral das condições de cooperação com as forças portuguesas, razão do encontro entre os representantes de ambos os países. A África do Sul propôs que se discutisse “Um Plano de Defesa para a África Austral”, apresentando desde logo o seu ponto de vista, em conferências divididas pelos seguintes temas:

1ª Parte – A situação militar na África Austral, com referência especial para a República da África do Sul;
2ª Parte – A situação no Este e no Sueste de Angola – Distritos do Moxico e Cuando-Cubango;
3ª Parte – Plano de Defesa para a África Austral;
4ª Parte – A República da África do Sul na condução global da campanha no Sueste de Angola.

Relativamente ao plano de defesa da África Austral, a questão a que deveria responder-se era a de saber como “fazer face a um inimigo comum”. E para isso era necessário um plano comum de utilização das tropas disponíveis de forma coordenada e planeada.

Este encontro, seguido da visita do primeiro-ministro da África do Sul, John Vorster, a Portugal, em 5 de Junho de 1970, levaram à assinatura de um acordo de base, em 14 de Outubro de 1970, orientador das conversações tripartidas entre Portugal, a República da África do Sul e a Rodésia. O acordo, designado “Exercício Alcora”, foi aprovado pelo ministro da Defesa de Portugal quase imediatamente, em 28 de Outubro de 1970; e veio a ser confirmado no ano seguinte pelos ministros da Defesa da África do Sul e da Rodésia, respectivamente em 12 de Maio e em 26 de Julho.

As conversações para o acordo tiveram lugar em Pretória, entre 7 e 9 de Outubro. As delegações militares de Portugal e da África do Sul eram chefiadas respectivamente pelo coronel Rocha Simões, director da 5ª Divisão do SGDN e pelo brigadeiro Greyvenstein, director do planeamento estratégico do Ministério da Defesa.

Aí ficou esclarecido que “o objectivo do Exercício Alcora consiste em investigar os processos e meios de conseguir um esforço coordenado tripartido entre Portugal, Rodésia e África do Sul, tendo em vista fazer face à ameaça mútua contra os seus territórios na África Austral”.

No documento assinado a 14 de Outubro são mencionados os assuntos a considerar para discussão futura, destacando-se, entre outros:

- Estudo da ameaça;
- Elementos de Estratégia;
- Táctica e normas de execução permanente em combate;
- Informações;
- Cartografia;
- Telecomunicações;
- Transportes;
- Logística;
- Aquisição de equipamento;
- Guerra psicológica.

O modus operandi proposto previa que, depois de conseguido o acordo para cada assunto, fosse nomeada uma comissão conjunta. E que acima das comissões para os diversos assuntos, se previsse desde logo uma comissão militar de alto nível, com “autoridade para estabelecer políticas, definir orientações e coordenar a acção das subcomissões”.

O acordo previa que, depois do documento ser aprovado pelas autoridades dos três países, se realizasse uma nova reunião, desde logo marcada para a África do Sul. Veio a ocorrer no período de 30 de Março a 1 de Abril de 1971, em Pretória.

Estas reuniões de alto nível prosseguiram, tendo-se realizado seis antes do 25 de Abril de 1974, e uma última em Junho deste ano, destinada a encerrar este ciclo de actos preparatórios para uma efectiva aliança militar destinada à defesa de um poder branco na África Austral.


Patrulha portuguesa em Tete, Moçambique (AHM).

Em paralelo com estas reuniões realizaram-se dezenas de outras, de variadíssimas áreas militares, visando estabelecer regras e procedimentos comuns, para o emprego de forças militares conjuntas. Passaram também a ser comuns as reuniões de responsáveis pelas informações e pelos serviços secretos dos três países, assim como as visitas de altos responsáveis políticos e militares.

Contudo, só em Setembro de 1973 os ministros da Defesa de Portugal, África do Sul e Rodésia aprovaram a criação de uma Organização Permanente de Planeamento Alcora (PAPO). Este novo órgão constituía o culminar de um trajecto percorrido desde a primeira reunião de alto nível em Março de 1970. Ele iria integrar as atribuições anteriormente dispersas pela comissão de coordenação e pelas diversas subcomissões Alcora. Ficou decidido também que a Organização iniciaria o seu funcionamento em Pretória, em Janeiro de 1974.

Faltava apenas o acordo financeiro, que viria a ser assinado em 8 de Março de 1974 entre o Governo Português (Ministério das Finanças) e o South Africa Reserve Bank para um empréstimo de 150 milhões de rands, destinado a financiar a aquisição de equipamento militar por Portugal.

Na sequência da aproximação política entre Portugal e a África do Sul, especialmente através das cimeiras desenvolvidas no âmbito do projecto “Alcora”, quando já estava decidido e em funcionamento um órgão permanente de planeamento “Alcora”, com sede em Pretória, os dois governos negociaram um grande empréstimo da África do Sul a Portugal no valor de 150 milhões de Rands. Este montante seria transferido para Portugal num prazo de 5 anos, em tranches de 5 milhões mensais, até um máximo de 50 milhões por ano. Destinava-se a suportar as despesas de Portugal com a aquisição de novos equipamentos e armamento. A prestação de Março foi imediatamente transferida.

Com o 25 de Abril, as transferências foram interrompidas, para não mais serem retomadas. Contudo, Portugal tinha já assumido compromissos vultosos por conta do empréstimo, na aquisição de equipamentos militares, incluindo os mísseis Crotale.

As negociações ao nível militar prolongaram-se até finais de 1975, sendo então transferido o problema para o âmbito dos Ministérios das Finanças e dos Negócios Estrangeiros.


6. Em 24 de Junho de 1974 teve início a sétima e última reunião do “Exercício Alcora”, mais uma vez em Pretória, em que os representantes dos três países se confrontam com os acontecimentos em Portugal e com o desmoronamento da organização tão longa e minuciosamente preparada para impedir o progresso do “Comunismo e da sua lança avançada, o Nacionalismo Africano”.

Nunca virá a saber-se como reagiriam vários sectores portugueses, tanto políticos como militares, ao conhecimento das decisões Alcora, se o 25 de Abril não as tivesse silenciado no momento exacto da sua divulgação. Com a máquina em movimento, é de supor que a reunião de alto nível prevista para Lisboa, no período de 24 a 28 de Junho, viesse a decidir a divulgação pública do acordo e do nível de cooperação já em execução e previsto, assim como das circunstâncias do seu funcionamento. Não se adivinha fácil a aceitação das resoluções de alto nível, de concretização de uma parceria melindrosa, e porventura inaceitável para alguns sectores do próprio regime. Mas o 25 de Abril não impediu a realização da reunião prevista para Lisboa (cautelosamente transferida para Pretória), que se revestiu de aspectos bastantes constrangedores.

Começou a reunião pela apresentação do relatório do DGSP, Director Geral de Planeamento Especiais, general R. Clifton. O responsável pela PAPO optou por ignorar completamente os acontecimentos de Portugal, porventura desejando que isso nunca tivesse acontecido ou esperando que nenhumas circunstâncias afectassem o desenvolvimento da sua organização. É o que justifica as suas primeiras palavras: “Desde que a ATLC se reuniu pela última vez em 9 de Novembro de 1973, foi estabelecida a organização PAPO sobre bases firmes e começa, parece-me, a desempenhar a sua função de alcançar os objectivos Alcora”. E prosseguindo: “Além da sua função de executar as tarefas especificamente determinadas pela ATLC, torna-se aparente que a PAPO é aceite como o veículo mais conveniente para coordenar e accionar quaisquer assuntos de carácter bilateral ou tripartido. Isto torna-se possível devido à composição representativa dos seus quadros e aos canais de comunicação que foram criados”.

O relatório desculpa depois alguns atrasos pela necessidade que houve de efectuar uma série de trabalhos administrativos, mas enumera algumas das tarefas cumpridas. Assim, entre Fevereiro e Abril, “efectuaram-se na PAPO onze reuniões das subcomissões Alcora para entrega das suas tarefas”, e embora este processo tenha atrasado a execução de trabalhos próprios da PAPO, a verdade é que isso “estabeleceu firmes alicerces para as suas futuras tarefas”. Continuando neste tom, o relator revela que “a primeira e prioritária tarefa de planeamento da PAPO foi a realização de um estudo designado por “Eliminação do Terrorismo”, que será distribuído. Uma falha contudo, aponta o general: “A PAPO tem dez oficiais a menos: sete de Portugal e três da Rodésia”, situação agravada pelo facto de “certos elementos do pessoal português serem cumulativamente adidos acreditados”, o que decerto não deixaria de se reflectir na capacidade da organização.

Mas se na aparência nada pareceu suficiente para alterar o tom do relatório, a verdade é que todos esperavam pela explicação portuguesa. A revolução de Lisboa, estava assente nos espíritos, desmoronara a construção Alcora.

Convidada então a delegação portuguesa a explicar “as possíveis consequências dos recentes acontecimentos, em Angola e Moçambique, e se havia vantagem na continuação do Alcora na sua forma actual”, não puderam os representantes portugueses furtar-se a abordar as questões que se levantavam e que os outros parceiros queriam escutar. Assim, em primeiro lugar, “não é conveniente nas actuais circunstâncias dar informações à imprensa sobre a existência do Alcora”, já que “as pressões internacionais podem interferir nas negociações em curso”. Quanto à influência da situação em Portugal no Alcora, vale a pena a transcrição da difícil resposta portuguesa: “O primeiro objectivo do Governo Português era obter um cessar-fogo nos territórios Alcora como pré-requisito para as conversações com os movimentos nacionalistas. Contudo, existem algumas diferenças de opinião com alguns partidos que querem imediatamente uma independência completa. O Governo Português não concorda com isto porque está convencido que os partidos que presentemente conduzem a luta não representam a opinião da maioria da população dos vários territórios. As pressões externas são fortes e é difícil nesta fase seguir uma linha de acção ou predizer um programa de acontecimentos. É também difícil prever o envolvimento militar futuro, mas se não se obtiver um cessar-fogo, Portugal assegura que continuará a combater o terrorismo. Em resumo, é difícil nesta fase planear a eliminação do terrorismo e compreendem-se as dificuldades da PAPO no estudo deste problema. Por causa das actuais preocupações internacionais e dos esforços da imprensa internacional para provar a existência de uma aliança Alcora, é inconveniente considerar nesta altura quaisquer acções conjuntas em Moçambique. O Governo Português assegurou já que evitará por todos os meios que os terroristas utilizem o território português contra os territórios vizinhos. Se a situação política evoluir continuando porém as Forças Armadas portuguesas responsáveis pela segurança militar de Angola e Moçambique, mantém-se a garantia anteriormente especificada. Desde que essa responsabilidade militar cesse então deixaremos de poder manter tal garantia”.

A mensagem era demasiado forte para que as ilusões continuassem. O Exercício Alcora tinha mesmo terminado.

Mas em Maio de 1975 houve ainda uma reunião em Lisboa de representantes militares da África do Sul com o estado-maior português, com o fim de dar solução à devolução dos materiais e equipamentos cedidos pela África do Sul a Portugal, no âmbito do extinto “Exercício Alcora”.

Era muito significativo o material emprestado pela África do Sul a Portugal. Os empréstimos tinham começado em 1969 e prosseguiram até 1973. Eram feitos sob uma designação codificada, como “operação Scapula”, “operação Oásis”, “operação Cadiz”, etc. Os materiais estavam a ser usados tanto em Portugal, como em Angola e Moçambique. As reuniões conjuntas iniciaram-se em 1974 e concluíram-se em Maio de 1975, quando uma delegação sul-africana se deslocou a Lisboa para acertar todos os pormenores da devolução. A correspondência entre as partes foi intensa, mas as operações de devolução prolongaram-se até 1976. Em muitos casos os materiais estavam a ser utilizados nas unidades portuguesas, fazendo parte do seu equipamento orgânico. Outras vezes foi necessário conferir o que regressava de Angola e Moçambique para se chegar ao acerto final. Em alguns casos os materiais ficaram nestes territórios, tornando inviável a devolução. A África do Sul aceitou que vários materiais fossem considerados obsoletos e não fossem incluídos na devolução.


7. Em suma, o “Exercício Alcora” foi uma aliança político-militar de Portugal com os regimes da África do Sul e da Rodésia, construída nos anos finais do regime português, com o fim de coordenar esforços e meios para dar combate mais eficaz aos movimentos autonomistas e de transformação interna dos regimes da África Austral.

As conversações bilaterais e tripartidas envolveram as maiores autoridades militares e políticas dos três países e traduziram-se pela instituição de um órgão de comando e direcção das operações militares em todos os territórios Alcora (Angola, África do Sul, Rodésia e Moçambique), na constituição de forças integradas e na definição de uma política de contra-subversão comum.

Está em aberto saber como iria o regime português enfrentar a divulgação pública da existência da aliança ou que medidas tinha preparadas para lhe dar seguimento prático, de acordo com as exigências dos seus parceiros. E quais seriam os projectos para os territórios que administrava e continuavam em guerra, não só Angola e Moçambique (territórios Alcora), mas também a Guiné.



quinta-feira, 29 de setembro de 2016

UMA CURIOSA CARTA DE 1973

Este texto foi publicado na Revista da Associação Cultural 25 de Abril, Toronto, 2016.



Em finais de 2009, quando eu e o Carlos de Matos Gomes fazíamos investigação para o nosso livro “Alcora – O Acordo Secreto do Colonialismo” tivemos acesso ao arquivo de Marcelo Caetano depositado na Torre do Tombo, devidamente autorizados pelo filho do antigo Presidente do Conselho de Ministros. A parte respeitante à correspondência é mais pobre do que poderia pensar-se, embora com interesse para o levantamento de algumas relações de poder da época.

Entre outros assuntos que nos interessaram, vou hoje destacar uma carta que o Engº. Jorge Jardim (1) enviou ao Ministro da Defesa, Sá Viana Rebelo, e da qual este deu conhecimento a Marcelo Caetano, com data de 18 de Abril de 1973, portanto um ano antes do movimento revolucionário do 25 de Abril de 1974, que depôs Marcelo Caetano e inaugurou o actual regime democrático.

Existe a ideia da pouca influência que Jorge Jardim teria junto do Governo Português, nesta época, em especial depois do afastamento de Salazar. O teor e o conteúdo desta carta parece indicar o contrário, pelo menos no que respeita à questão colonial e às relações que uma importante facção do regime queria estabelecer com a África do Sul, no âmbito do Acordo secreto já então muito avançado.

É sobre este assunto que Jorge Jardim primeiro se debruça, nos seguintes termos:

“O seu colega da República da África do Sul, com quem estive em Cape Town em 29/03/73, envia-lhe os mais amigos cumprimentos e confirmou-me o propósito de ir visitá-lo a si, a Lisboa (…)
Preocupando-se altamente com a evolução dos problemas no Malawi e na Zâmbia, reafirmou-me que poderíamos contar com todo o decidido apoio por parte da República da África do Sul.
Foi mesmo muito entusiástico quanto à nossa política de “envolvimento progressivo” da Zâmbia pela concessão de facilidades.
Não poupou comentários agrestes, e mesmo violentos, quanto à atitude rodesiana de encerramento da fronteira com a Zâmbia (…)
Penso que desejará apreciar consigo a eventualidade da transferência para Pretória de alguns serviços “Alcora” e assegurou-me, muito enfaticamente, que de modo algum transmitiriam aos rodesianos informações que se pudessem ligar com o nosso planeamento bilateral de actuação.
Ainda acerca da estrutura “Alcora”, pediu-me para eu ter demorada entrevista com o capitão de mar-e-guerra W.N. du Plessis e solicitou-me para a si referir o interesse que teriam em ver reforçada a participação portuguesa na P.A.I.O. (2)
 Este interesse, segundo detalhadamente me veio a explicar o comandante Du Plessis, resulta de considerarem esse órgão do “Alcora” como muito importante para a coordenação de informações, podendo nele recolherem-se dados de interesse para o esforço comum e para além do trabalho que vem realizando o “Sub-Committee of Inteligence” instituído em Junho de 1971.
Segundo me foi referido, para além do pessoal auxiliar, o “PAIO” teria a participação permanente de um oficial (com a patente de coronel) por Portugal, pela RAS e pela Rodésia.
No nosso caso parece que se seguiu a orientação de a representação portuguesa no PAIO ser confiada ao adido militar em Salisbury.
Consideram que, devido às muitas atribuições e responsabilidades que incidem sobre o nosso adido militar, essa colaboração portuguesa se tem revelado insuficiente e muito apreciavam se lhe fosse possível, a si, designar oficial qualificado para permanente participação no PAIO.
Aqui lhe transmito esse pedido do seu colega Botha e as explicações que me foram dadas, complementarmente, pelo comandante Du Plessis em 30/03/73.
O comandante Du Plessis dirige o departamento de informação estratégica nos serviços do general Du Toit (M.I.A.) que provavelmente acompanhará o ministro Botha a Lisboa.
Por este seu colega foi-me confirmado que o Governo de Pretória considera muito favoravelmente a concretização da assistência que por si lhe foi solicitada, quando da reunião de Lourenço Marques”.

Jorge Jardim aproveita a carta para abordar outro assunto de muito melindre, ainda relacionado com a situação nas colónias e um obscuro fornecimento de material de guerra a Portugal. Diz o seguinte:

“Por último quero referir-me ao fornecimento de munições soviéticas a Portugal e de que me tenho vindo a ocupar no seguimento do que me foi solicitado pelo Comandante-Chefe e teve a sua aprovação.
O “Cláudia” saiu efetivamente de porto russo para Trípoli com aquele equipamento, anunciando a data de chegada a Lisboa que foi sendo progressivamente adiada.
Isso me levou a fazer algumas indagações (…) Dessas indagações me resultou a informação de que o “Cláudia” transportava, igualmente, material para outro destino na Europa.
A demora em Trípoli resultou das negociações para esse outro fornecimento e de aguardarem a chegada de elementos que o acompanhariam.
Fiquei altamente preocupado com a possibilidade de nos vermos envolvidos em alguma tramóia escandalosa, no âmbito internacional, em que pudéssemos figurar como “bode expiatório”.
Fiz assim saber a Gunter Leinhauser (em contacto com emissário meu em Hamburgo) que não consentiríamos na passagem do “Cláudia” (3) por Lisboa desde que trouxesse a bordo outro equipamento para eventual cliente diverso.
Recebi o mais formal compromisso de que isso não aconteceria e quando se verificou o apresamento do “Cláudia” bem avaliará o alívio que senti pela inspirada preocupação que tinha tomado.
Todo o nosso material se perdeu naquele apresamento mas, ao menos, foi exclusivamente o I.R.A. que ficou com a responsabilidade (…)
Gunter Leinhauser assegurou-me que faria em breve o reembolso da primeira prestação que havíamos liquidado (a 2ª prestação nunca chegou a ser transferida para a Suíça) e disponho de valiosa carta dele autógrafa em tal sentido (…)
Como sabe, o seu gabinete dispõe de fotocópia do conhecimento de carga relativo ao transporte do nosso material no “Cláudia”.

Como se vê, um assunto surpreendente, com contornos bastante obscuros, a necessitar outra investigação que na altura não estávamos interessados em fazer. Mas o assunto não deixa de suscitar perplexidades que estão, tanto quanto conheço, por investigar. Apesar do muito trabalho que se tem feito sobre estes anos finais do Estado Novo e em especial da situação nas colónias onde havia operações militares, são ainda muitos os assuntos que estão a precisar de novos interessados e de novos projectos de investigação.

Com o livro que publicámos em 2013 sobre o acordo “Alcora” entre Portugal, a África do Sul e a Rodésia (4) ficou esclarecida uma boa parte das relações estabelecidas pelos três governos de então, no sentido de resistir aos “ventos da História” que já sopravam sobre África havia muito tempo e aos quais Portugal e os regimes racistas da África Austral continuavam a querer resistir.

Quanto ao assunto da compra de armas e outro equipamento pelo governo português durante o período da guerra colonial, em especial na sua fase final, está ainda muito por esclarecer. Mas não deixarão de ser surpreendentes as conclusões que vierem a ser estabelecidas, em resultados de estudos sérios sobre esta época. Esperemos que tal seja possível.

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(1)     Jorge Jardim, engenheiro agrónomo, era nesta data um importante empresário da comunidade branca de Moçambique. Tinha privado com Salazar e aceitara missões diplomáticas específicas e difíceis durante o período da guerra colonial. As relações com Marcelo Caetano nunca foram tão próximas, mas ele continuou a servir de agente especial em várias missões importantes para o regime. A partir de 1972 tentou uma aproximação à Frelimo através do Presidente Kaunda da Zâmbia, tendo apresentado um programa de transição política para Moçambique (Programa de Lusaca) que nunca chegou a ter luz verde de qualquer das partes.


(2)     PAIO ou Permanent Alcora Inteligence Organization (Organização Permanente de Informações Alcora) era um dos organismos conjuntos que os negociadores sul-africanos e portugueses estavam a implementar, a fim de coordenarem políticas e ações militares no âmbito da África Austral e do chamado “Exercício Alcora”, uma verdadeira aliança política e militar.

(3)     A história do navio “Cláudia” é conhecida. Está referida, por exemplo, no livro “Historical Dictionary of Naval Intelligence” de autoria de Nigel West, publicado no Reino Unido, em 2010. O que o autor não refere é a circunstância de o navio também transportar material de guerra para Portugal, além da carga que se destinava ao IRA.

(4) Já está nas livrarias a 2ª edição deste livro, pela editora Objectiva, a apresentar brevemente. O prefácio a esta edição é de Jaime Gama.


Nota: Ver aqui duas fotos da captura do navio “Claudia” em Março de 1973:


















Capa da 2ª edição de "Alcora, o Acordo Secreto do Colonialismo".